sábado, 26 de fevereiro de 2011

Ruy Belo

 MORTIS CAUSA

Mulher de gestos dia a dia mais pequenos,
fosses tu qualquer coisa, uma cadeira ao menos
houvesse para ti sempre lugar em tua casa
e não ires um dia assim convencional serena
como papel ou lixo pela escada abaixo

Mulher espremida enquanto deste vida
e resumida à pequenina luz que se liberta
do gesto estritamente necessário linha recta
para anular o espaço entre a mão e a coisa
movimentos dos dias divergentes de outros dias
E tudo vai moendo e remoendo momento a momento
triturando colhendo arrepanhando
face ficta fraca e fIXa
a fruta em frente fita, frígida fremente

Ruy Belo
Boca Bilingue
Obra Poética
Editorial Presença

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sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

ÁNGEL GONZÁLEZ

INVENTÁRIO DE LUGARES PROPÍCIOS AO AMOR

São poucos.
A primavera tem muito prestígio, mas
é melhor o verão.
E também essas frestas que o outono
forma quando interfere com os domingos
em algumas cidades
já de si amarelas como bananas.
O inverno elimina muitos sítios:
gonzos de portas orientadas a norte,
margens de rios,
bancos de jardins.
Os contrafortes exteriores
das velhas igrejas
deixam às vezes vãos
a utilizar, ainda que a neve caia.
mas desenganemo-nos: as baixas
temperaturas e os ventos húmidos
dificultam tudo.
As leis, além do mais, proíbem
as carícias (à excepção
de determinadas zonas epidérmicas
sem qualquer interesse -
em crianças, cães e outros animais)
e "não tocar, perigo de ignomínia"
pode ler-se em milhares de olhares.
Para onde fugir, então?
Por todo o lado olhos de viés,
córneas torturadas,
implacáveis pupilas,
retinas reticentes,
vigiam, desconfiam, ameaçam.
Resta talvez o recurso de andar sozinho,
de esvaziar a alma de ternura
e enchê-la de fastio e indiferença,
neste tempo hostil, propício ao ódio.

ÁNGEL GONZÁLEZ
Tratado de Urbanismo
tradução de Helder Moura Pereira
Fenda
2001

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Gabriela Mistral

DESOLACIÓN

La bruma espesa, eterna, para que olvide dónde
me ha arrojado la mar en su ola de salmuera.
La tierra a la que vine no tiene primavera:
tiene su noche larga que cual madre me esconde.

El viento hace a mi casa su ronda de sollozos
y de alarido, y quiebra, como un cristal, mi grito.
Y en la llanura blanca, de horizonte infinito,
miro morir intensos ocasos dolorosos.

¿A quién podrá llamar la que hasta aquí ha venido
si más lejos que ella sólo fueron los muertos?
¡Tan sólo ellos contemplan un mar callado y yerto
crecer entre sus brazos y los brazos queridos!

Los barcos cuyas velas blanquean en el puerto
vienen de tierras donde no están los que son míos;
y traen frutos pálidos, sin la luz de mis huertos,
sus hombres de ojos claros no conocen mis ríos.

Y la interrogación que sube a mi garganta
al mirarlos pasar, me desciende, vencida:
hablan extrañas lenguas y no la conmovida
lengua que en tierras de oro mi vieja madre canta.

Miro bajar la nieve como el polvo en la huesa;
miro crecer la niebla como el agonizante,
y por no enloquecer no encuentro los instantes,
porque la "noche larga" ahora tan solo empieza.

Miro el llano extasiado y recojo su duelo,
que vine para ver los paisajes mortales.
La nieve es el semblante que asoma a mis cristales;
¡siempre será su altura bajando de los cielos!

Siempre ella, silenciosa, como la gran mirada
de Dios sobre mí; siempre su azahar sobre mi casa;
siempre, como el destino que ni mengua ni pasa,
descenderá a cubrirme, terrible y extasiada

Gabriela Mistral
Desolación, 1922

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quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Pedro Tamen

Papel amarrotado desse chá que tomaste
na tarde de qual dia, ou o copo de vidro
depressa transformado na total transparência,
não é que inexistente, mas de mínima espessura
sobre o cais deste porto onde ninguém aporta,
não o papel rasgado, não o desfeito em fogo,
incolor, inodoro, antraz ignoto, anuro,
coisa que sim, que é, mas já não o que foi,
vazia intensidade, inútil excrescência
da vida tilintante
- eis o que tenho agora
quando o dia amanhece e cai no saco roto
da débil complacência com que já não me vejo.

Pedro Tamen
relâmpago n.º3 10/98

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José Tolentino Mendonça

Uma coisa a menos para adorar


Já vi matar um homem
é terrível a desolação que um corpo deixa
sobre a terra
uma coisa a menos para adorar
quando tudo se apaga
as paisagens descobrem-se perdidas
irreconciliáveis

entendes por isso o meu pânico
nessas noites em que volto sem razão nenhuma
a correr pelo pontão de madeira
onde um homem foi morto

arranco como os atletas ao som de um disparo seco
mas sou apenas alguém que de noite
grita pela casa

há quem diga
a vida é um pau de fósforo
escasso demais
para o milagre do fogo

hoje estive tão triste
que ardi centenas de fósforos
pela tarde fora
enquanto pensava no homem que vi matar
e de quem não soube nunca nada
nem o nome

José Tolentino Mendonça

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José Agostinho Baptista

ILHA


Regresso sempre a ti, ilha,
à casa do silêncio,
às falésias da tua loucura,
ao berço que se move eternamente no
quarto da angústia,
regresso,
ilha,
depois das estradas que conheceram o meu
corpo e a minha saudade,
depois das eras de gelo e trevas,
depois dos incêndios,
regresso como quem já viu todas as luas e
todos os barcos ancorados,
todas as aves, todos os peixes cegos,
todas as rosas de basalto,

José Agostinho Baptista
Anjos Caídos
Assírio & Alvim
2003

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Herberto Helder

Deixarei os jardins a brilhar com seus olhos
detidos: hei-de partir quando as flores chegarem
à sua imagem. Este verão concentrado
em cada espelho. O próprio
movimento o entenebrece. Mas chamejam os lábios
dos animais. Deixarei as constelações panorâmicas destes dias
internos.


Vou morrer assim, arfando
entre o mar fotográfico
e côncavo
e as paredes com as pérolas afundadas. E a lua desencadeia nas grutas
o sangue que se agrava.


Está cheio de candeias, o verão de onde se parte,
ígneo nessa criança
contemplada. Eu abandono estes jardins
ferozes, o génio
que soprou nos estúdios cavados. É a cólera que me leva
aos precipícios de agosto, e a mansidão
traz-me às janelas. São únicas as colinas como o ar
palpitante fechado num espelho. É a estação dos planetas.
Cada dia é um abismo atómico.


E o leite faz-se tenro durante
os eclipses. Bate em mim cada pancada do pedreiro
que talha no calcário a rosa congenital.
A carne, asfixiam-na os astros profundos nos casulos.
O verão é de azulejo.
É em nós que se encurva o nervo do arco
contra a flecha. Deus ataca-me
na candura. Fica, fria,
esta rede de jardins diante dos incêndios. E uma criança
dá a volta à noite, acesa completamente
pelas mãos.

Herberto Helder
Cobra
Poesia Toda
Assírio & Alvim
1979

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Jardim Botânico de Singapura



terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Singapura

Camilo Pessanha

Floriram por engano as rosas bravas
No Inverno: veio o vento desfolhá-las...
Em que cismas, meu bem? Porque me calas
As vozes com que há pouco me enganavas?

Castelos doidos! Tão cedo caístes!...
Onde vamos, alheio o pensamento,
De mãos dadas? Teus olhos, que um momento
Perscrutaram nos meus, como vão tristes!

E sobre nós cai nupcial a neve,
Surda, em triunfo, pétalas, de leve
Juncando o chão, na acrópole de gelos...

Em redor do teu vulto é como um véu!
Quem as esparze – quanta flor! – do céu,
Sobre nós dois, sobre os nossos cabelos?


Camilo Pessanha
Fonógrafo
Clepsidra
e outros poemas
Colecção Poesia
Edições Ática

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sábado, 19 de fevereiro de 2011

Cesário Verde

A DÉBIL

Eu, que sou feio, sólido, leal,
A ti, que és bela, frágil, assustada,
Quero estimar-te, sempre, recatada
Numa existência honesta, de cristal.

Sentado à mesa dum café devasso.
Ao avistar-te, há pouco, fraca e loura.
Nesta Babel tão velha e corruptora,
Tive tenções de oferecer-te o braço.

E, quando socorreste um miserável,
Eu, que bebia cálices de absinto,
Mandei ir a garrafa, porque sinto
Que me tornas prestante, bom, saudável.

«Ela aí vem!» disse eu para os demais;
E pus-me a olhar, vexado e suspirando,
O teu corpo que pulsa, alegre e brando,
Na frescura dos linhos matinais.

Via-te pela porta envidraçada;
E invejava, - talvez que o não suspeites! -
Esse vestido simples, sem enfeites,
Nessa cintura tenra, imaculada.

Ia passando, a quatro, o patriarca.
Triste eu saí. Doía-me a cabeça.
Uma turba ruidosa, negra, espessa,
Voltava das exéquias dum monarca.

Adorável! Tu, muito natural,
Seguias a pensar no teu bordado;
Avultava, num largo arborizado,
Uma estátua de rei num pedestal.

Sorriam, nos seus trens, os titulares;
E ao claro sol, guardava-te, no entanto,
A tua boa mãe, que te ama tanto,
Que não te morrerá sem te casares!

Soberbo dia! Impunha-me respeito
A limpidez do teu semblante grego;
E uma família, um ninho de sossego,
Desejava beijar sobre o teu peito.

Com elegância e sem ostentação,
Atravessavas branca, esvelta e fina,
Uma chusma de padres de batina,
E de altos funcionários da nação.

"Mas se a atropela o povo turbulento!
Se fosse, por acaso, ali pisada!"
De repente, paraste embaraçada
Ao pé dum numeroso ajuntamento.

E eu, que urdia estes fáceis esbocetos,
Julguei ver, com a vista de poeta,
Uma pombinha tímida e quieta
Num bando ameaçador de corvos pretos.

E foi, então, que eu, homem varonil,
Quis dedicar-te a minha pobre vida,
A ti, que és ténue, dócil, recolhida,
Eu, que sou hábil, prático, viril.


CESÁRIO VERDE
EDITORA ULISSEIA

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terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Introducing KODAK VISION3 200T Color Negative Film 5213/7213

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Asian Civilisations Museum de Singapura





Máscaras congolesas

sábado, 5 de fevereiro de 2011

José Assis

Exposição de José Assis na Galeria Prova de Artista, a 17 de Fevereiro.
Uma sensibilidade fora do comum.
Uma beleza que nos faz bem.

http://provadeartista-blog.blogspot.com/

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sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Poema Sânscrito

1.

Esta mesma lua ilumina a minha amada
O vento acariciou já o seu rosto
A lua impregnou-se da sua beleza
e o vento do seu perfume.

Quem ama de verdade pouco lhe basta
para suportar a separação…
Que ela e eu respiremos o mesmo ar
e que os nossos pés pisem o mesmo céu.

2.

Suspiro por vê-la quando estamos separados
Anseio por abraçá-la quando a vejo
E quando abraço essa beleza de olhos rasgados
Fundir-me com ela é o meu único desejo.

3.

Não pode o lótus florir de noite
Nem a lua brilhar durante o dia
Apenas o teu rosto
Consegue realizar essa magia

4.

Embora não tenham limites as minhas conquistas
Para mim há apenas uma cidade
E nessa cidade um palácio
E nesse palácio um quarto
E nesse quarto uma cama
E nessa cama uma mulher
Adormecida
A jóia mais valiosa
De toda a minha coroa

5.

Se tenho o teu amor,
que me interessa o Paraíso?
Se não tenho o teu amor,
que me interessa o Paraíso?


Poema Sânscrito
Traduções de Jorge de Sousa Braga - in in ROSA DO MUNDO-
ed.Assírio e Alvim, Lisboa, 2001

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Horácio

.
.

Horácio
Arte Poética

Roma
(c. 65-8 a. C.)

ARTE POÉTICA
(1-13)

Harmonia e proporção entre as partes da obra poética

Se um pintor à cabeça humana unisse
pescoço de cavalo e de diversas
penas vestisse o corpo organizado
de membros de animais de toda a espécie,
de sorte que mulher de belo aspecto
em torpe e negro peixe rematasse
vós, chamados a ver esta pintura,
o riso sofreríeis? Pois convosco
assentai, ó Pisões, que a um quadro destes
será mui semelhante aquele livro
no qual ideias vãs se representam
(quais os sonhos do enfermo), de tal modo,
que nem pés, nem cabeça a uma só forma
convenha. De fingir ampla licença
ao poeta e pintor sempre foi dada.
Assim é; e entre nós tal liberdade
pedimos mutuamente, e concedemos;
mas não há-de ser tanta, que se ajunte
agreste çom suave, e queira unir-se
ave a serpente, cordeirinho a tigre.

TRAD.: CÂNDIDO LUSITANO
Rosa do Mundo
2001 Poemas Para o Futuro

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QUINTO HORÁCIO FLACO

QUINTO HORÁCIO FLACO
Roma
65-8 a.C.

ODE
11, 16-A GROSFO

Repouso aos deuses roga na amplidão
Do Egeu, perdido, enquanto as atras nuvens
Lhe escondem lua, e que nem certas brilham
As estrelas, o nauta.

Repouso os Trácios em furiosa guerra,
Repouso os Medos de preciosa aljava,
Ó Grosfo, que a nem gemas, nem a púr-
pura se vende ou ouro.

Nenhum tesouro, nem que em torno ao cônsul
Lictores vão, o mísero tumulto
Da mente, ou os cuidados que sob ricos
Volantes estão tectos.

De pouco se é feliz: que o na paterno
Resplenda pobre mesa galheteiro;
Que o leve sono nem temor perturbe
Ou sórdida cobiça.

Porque, se a vida é breve, tantas cousas
Buscamos? Para quê terras alheias
Por outros sóis candentes? Quem da pátria
Sai a si mesmo escapa?

Em rostradas vicioso embarca naves
Esse cuidado, e que esquadrões equestres
É mais veloz, bem mais que o cervo e as nuvens
Por Euro afugentadas.

Contente no presente, alma não cuide
Do que virá, e as amarguras com
Sorriso aceite calmo. Nada é todo
Em perfeição, feliz.

Raptou ao claro veloz morte Aquiles,
Longa a Titónio reduziu velhice,
E a mim, talvez, o que negar a ti
As horas ainda tragam.

Tu juntas cem e da Sicília vacas
Mugindo à tua volta, a ti relincha
Apta égua de quadriga, te de lã .
De afro múrex tinta

Vestes: e a mim pequena terra deu,
E o sopro gregas ténue das Camenas,
A que não mente Parca, e à maldade
Eu desprezar do vulgo.


poesia de 26 séculos
de Arquíloco a Nietzsche
antologia, tradução, prefácio e notas
Jorge de Sena
Edições ASA
2001

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Guilhem de Peitieu

Fiz um poema sobre nada:
Não é de amor nem é de amada,
Não tem saída nem entrada,
Ao encontrá-lo,
Ia dormindo pela estrada
No meu cavalo.

Eu não sei quando fui gerado:
Não sou alegre nem irado,
Não sou falante nem calado,
Nem faço caso,
Aceito tudo o que me é dado
Como um acaso.

Não sei quando é que adormeci,
Quando acordei também não vi,
Meu coração quase parti
Com o meu mal,
Mas eu não ligo nem a ti,
Por São Marcial.

Estou doente e vou morrer,
Não sei de quê, ouvi dizer,
A um médico vou recorrer,
Mas não sei qual,
Será bom se me socorrer
E se não, mau.

Tenho uma amiga, mas quem é
Não sei nem ela sabe e até
Nem quero ver, por minha fé,
Pouco me importa
Se há normando ou francês ao pé
Da minha porta.

Eu não a vi e amo a ninguém
Que não me fez nem mal nem bem
E nem me viu. Isso, porém,
Tanto me faz,
Que eu sei de outra, entre cem,
Que vale mais.

Finda a canção, não sei de quem,
Irei passá-la agora a alguém
Que a passará ainda além
A amigo algum,
Que logo a passará também
A qualquer um.

Guilhem de Peitieu
Canção, séc. XII

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