quinta-feira, 10 de maio de 2012

Finalmente já posso continuar a colocar coisas neste blogue. Houve uma azelhice minha, mas o caso já está resolvido.
Vou recomeçar com um poema de Herberto Helder.

 TODAS PÁLIDAS, AS REDES
                      METIDAS NA VOZ.

Todas pálidas, as redes metidas na voz.
Cantando os pescadores remavam
no ocidente - e as grandes redes
leves caíam pelos peixes abaixo.
Por cima a cal com luz, por baixo os pescadores
cheios de mãos cantando.
Cresciam as barcas por ali fora, a proa
aberta como uma janela ao sal.
Metida na voz, toda pálida, a proa
rimava no ocidente com a cal que os pescadores
remavam, cantando grande, pe-
la luz fora. Ao sol, ao sal.

E o espírito de Deus como num livro
movia-se sobre as águas.
Com seu motor à popa, veloz, peixe
sumptuoso, o espírito de Deus, motor de um nú-
mero de cavalos, galgava
a antiga face pálida das águas. Enquanto,
cantando as redes,
os pescadores metiam as mãos cheias de cal
de cal pelos grandes peixes abaixo.
E pelas barcas fora a luz remava pe-
lo ocidente todo pálido, rimando
as redes leves com a proa.

E o peixe espírito de Deus, rangendo
o motor, rompia com um número,
remando todo pálido os seus grandes
cavalos. Deus
cantava no ocidente sobre as redes de cal,
a proa aberta - como as guelras
da luz. E os pescadores
metiam as redes pelo espírito de Deus abaixo.
E os remos rimavam com as redes
leves no peixe sumptuoso.
Por ali fora as guelras caíam na voz
dos grandes pescadores.

E Deus metido então nas redes, puxado
cor de cal para dentro
das barcas, as mãos cantando cheias
de pescadores.
E sobre as águas rangentes, rompendo
o leve ocidente, os pescadores remavam
o espírito de Deus para terra - peixe
de motor à popa - e a proa
grande aberta.

E cantavam o seu peixe sumptuoso, espírito
pálido na leve cal do ocidente
cantando.

HERBERTO HELDER
de Electronicolírica, 1964

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quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Anne Sexton


THE GOLD KEY

The speaker in this case
is a middle-aged witch, me—
tangled on my two great arms,
my face in a book
and my mouth wide,
ready to tell you a story or two.
I have come to remind you,
alI of you:
Alice, Samuel, Kurt, Eleanor,
Jane, Brian, MaryeI,
alI of you draw near.
Alice,
at fifty-six do you remember?
Do you remember when you
were read to as a child?
Samuel,
at twenty-two have you forgotten?
Forgotten the ten P.M. dreams
where the wicked king
went up in smoke?
Are you comatose?
Are you undersea7
Attention,
my dears,
let me present to you this boy.
He is sixteen and he wants some answers.
He is each of us
I mean you.
I mean me.
I t is not enough to read Hesse
and drink clam chowder
we must have the answers.
The boy has found a gold key
and he is looking for what it will open.
This boy!
Upon finding a nickel
he would look for a wallet.
This boy!
Upon finding a string
he would look for a harp.
Therefore he holds the key tightly.
Its ,secrets whimper
like a dog in heat.
He turns the key.
Presto!
It opens this book  of  odd tales
which transform the Brothers Grimm.
Transform?
As if an enlarged paper clip
could be a piece of sculpture.
(And it could. )

transformations
anne sexton
Mariner Books

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domingo, 16 de outubro de 2011

Jorge de Sena

«MORRA O BISPO E MORRA O PAPA»

Morra o bispo e morra o papa.
maila sua clerezia.
Ai rosas de leite e sangue.
que só a terra bebia!
Morram frades, morram freiras.
maila sua virgaria.
Ai rosas de sangue e leite.
que só a terra bebia!
Morra o rei e morra o conde.
maila toda fidalgula.
Ai rosas de leite e sangue.
que só a terra bebia!
Morram meirinho e carrasco.
maila má judicaria.
Ai rosas de sangue e leite.
que só a terra bebia!
Morra quem compra e quem vende,
maila toda a usuraria.
Ai rosas de leite e sangue.
que só a terra bebia!
Morram pais e morram filhos.
maila toda filharia.
Ai rosas de sangue e leite.
que só a terra bebia!
Morram marido e mulher.
maila casamentaria.
Ai rosas de leite e sangue,
que só a terra bebia!
Morra amigo, morra amante.
mailo amor que se perdia.
Ai rosas de sangue e leite,
que só a terra bebia!
Morra tudo, minha gente.
vivam povo e rebeldia.
Ai rosas de leite e sangue.
que só a terra bebia!

Jorge de Sena
Visão Perpétua
5/1964

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domingo, 18 de setembro de 2011

Carlos Tê

ninguém escreve à alice

era outono e a tristeza
caía naqueles lados
como se dobrassem sinos
com um toque de finados

o mundo chamava alice
e ela sem vontade de ir
tão cedo para estar amarga
mais ainda para cair

talvez uma só palavra
talvez uma só missiva
pudesse mudar a agulha
dum coração à deriva

mas o carteiro passou
nada deixou nada disse
e o recado não chegou
ninguém escreve à alice
ninguém escreve à alice

até que veio o inverno
do seu descontentamento
que lhe enregelou a alma
com um frio mudo e lento

uma noite foi para a rua
com roupas de ritual
ao longe brilhavam néons
foi notícia no jornal

talvez uma só palavra
talvez um simples recado
pudesse mudar a agulha
dum coração desvairado

mas o carteiro passou
nada deixou nada disse
e o recado não chegou
ninguém escreve à alice

carlos tê

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quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Sylvia Plath



Face Lift

You bring me good news from the clinic,
Whipping   silk scarf, exhibiting the tight white
Mummy-cloths, smiling: I'm all right.
When I was nine, a lime-green anesthetist
Fed me banana gas through a frog-mask. The nauseous vault
Boomed with bad dreams and the Jovian voices of surgeons.
Then mother swam up, holding a tin basin.
O I was sick.

They've changed all that. Traveling
Nude as Cleopatra in my well-boiled hospital shift,
Fizzy with sedatives and unusually humorous,
I roll to an anteroom where a kind man
Fists my fingers for me. He makes me feel something
precious
Is leaking from the finger-vents. At the count of two
Darkness wipes me out like chalk on a blackboard ...
I don't know a thing.

For five days I lie in secret,
Tapped like a cask, the years draining into my pillow.
Even my best friend thinks I´m in the country.
Skin doesn't have roots, it peels away easy as paper.
When I grin, the stitches tauten. I grow backward. I'm
twenty,
Broody and in long skirts on my first husband's sofa, my
fingers
Buried in the lambswool of the dead poodle;
I hadn't a cat yet.

Now she's done for, the dewIapped lady
I watched settle, line by line, in my mirror
Old sock-face, sagged on a darning egg.
They've trapped her in some laboratory jar

Sylvia Plath
 Poems  selected by Ted Hughes
Faber Poetry
 FF
faber and faber

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domingo, 19 de junho de 2011

GERVÁSIO

Inter-Sonho

     Ao Nesso

É nas ânsias loiras, ascendendo o espaço,
Qu 'há Bocas 'smagadas, raivas irreais,
Qu'há carnes que s'estorcem em espasmos d'aço
Almas que s'elevam às regiões astrais!

Vontades d'emigrar para o peito qu'rido,
Em Matéria e Alma ali se condensar;
Sorver aos poucos o Corpo apetecido,
Ah!...´smagar... torcer... premir... espedaçar...

Moles os Sentidos do c'lorido amplexo,
Tremida toda a Alma, êxtases já sem nexo,
Os pensamentos loiros 'svoaçam pelo ar...

Há só então n ' alma o pálido reflexo,
De tudo que oscilou, cinz'inda a queimar!
E na boca seca, um ruivo palpitar.


GERVÁSIO
Faro,12-2-1917
Poesia Futurista Portuguesa
(Faro 1919-1917)
selecção de Nuno Júdice

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sábado, 11 de junho de 2011

Maria do Sameiro Barroso

ESPÁDUAS DE LUZ

                                       "Eu estava no mundo.
                 e o mundo continuava a ser o mundo
    mas era também um arquipélago de jardins. "
                                       António Ramos Rosa
                                     (De um poema inédito)

Nas ilhas de silêncio e barcos que a água
                     e o sangue misturam,
                     hélices de bruma, redes
                     cobertas de animais marinhos,

ninhos de folhas, ervas que libertam libélulas
                     vermelhas e azuis, jacintos
                     de água. Espáduas de luz.
                     Seixos, cicatrizes.

Larvas que crescem na língua argilosa que
                     percorre as fendas branquiais,
                     os fundos arenosos.
                     A elipse negra dos rostos.

Porque as palavras são um clarão que liberta
                     as feridas,
                     as fímbrias despedaçadas.
                     Como roseiras insólitas

que ferem, possibilitam o corpo
                     de estrelícias / solidão,
                     estátuas negras.
                     Sementes que germinam.

Desprendendo aromas.

                                       Cinza e claridade.


Maria do Sameiro Barroso
Jardins Imperfeitos
Universitária Editora

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quinta-feira, 26 de maio de 2011

PAUL ÉLUARD

Se eu vos digo que o sol na floresta
É como um ventre que se entrega num leito
Vós acreditais e aprovais os meus desejos

Se eu vos digo que o cristal dum dia de chuva
Ressoa sempre na languidez do amor
Vós acreditais e aumentais o tempo do amor

Se eu vos digo que entre os ramos do meu leito
Faz ninho um pássaro que nunca diz sim
Vós acreditais ainda mais e depois compreendeis-me

Mas se eu canto sem desvios a minha rua inteira
E o meu país inteiro como uma rua interminável
Vós não me acreditais e partis para o deserto

Porque vós marchais sem fim sem saber que os homens
Precisam de estar unidos de esperar e de lutar
Para explicar o mundo e para o transformar

Ao ritmo do meu coração levar-vos-ei
Estou sem forças vivi e vivo ainda
Mas eu me espanto de falar para vos arrebatar

Quando eu quereria libertar-vos para vos confundir
Tanto com a alga e o junco da aurora
Como com vossos irmãos que constroem a luz.

PAUL ÉLUARD
(1895-1952)
(in «Poèmes Politiques»,
Trad. de António Ramos Rosa,
«Árvore - folhas de poesia»,
Introdução e índice de Luís Adriano Carlos,
Campo das Letras, 2003)

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quarta-feira, 25 de maio de 2011

PAUL VERLAINE

SOBRE UMA ESTÁTUA

Quê?! Nesta estância balnear
- Repouso, tréguas, paz - contigo
De face ou dorso venho dar,
Canímedes, meu belo amigo!

Arrebata-te a águia, acaso
Com pena, do meio das flores;
Avara de efusões sua asa
Parece querer-te, se tu fores.

Oh! Não prò Júpiter tirânico,
Mas «pràs nuvens», talvez, plo visto.
E aquele olho que me dá pânico
Lança-te um olhar bem esquisito...

Fica connosco, ó bom rapaz!
Todo este tédio em que me movo
Distrai-o tu, como és capaz.
Pois não és nosso irmão mais novo?

  Aix-les-Bains, Setembro de 1889

PAUL VERLAINE
(1844-1896)
(in «Hombres e Algumas Mulheres»,
Tradução de Luiza Neto Jorge)

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terça-feira, 17 de maio de 2011

Roberto Fernández Retamar

FELIZES OS NORMAIS

Felizes os normais, esses seres estranhos.
Os que não tiveram uma mãe louca, um pai bêbedo, um filho delinquente,
Uma casa em parte nenhuma, uma doença desconhecida,
Os que não foram calcinados por um amor devorador,
Os que viveram os dezassete rostos do sorriso e um pouco mais,
Os cheios de sapatos, os arcanjos com chapéus,
Os satisfeitos, os gordos, os lindos,
Os rintimtim e os seus sequazes, os que como não, por aqui,
Os que ganham, os que são queridos até ao fim,
Os flautistas acompanhados por ratos,
Os vendedores e seus compradores,
Os cavaleiros ligeiramente sobre-humanos,
Os homens vestidos de trovões e as mulheres de relâmpagos,
Os delicados, os sensatos, os finos,
Os amáveis, os doces, os comestíveis e os bebíveis.
Felizes as aves, o esterco, as pedras.

Mas que dêem passagem aos que fazem os mundos e os sonhos,
As ilusões, as sinfonias, as palavras que nos desbaratam
E nos constroem, os mais loucos que as suas mães, os mais bêbedos
Que os seus pais e mais delinquentes que os seus filhos
E mais devorados por amores calcinantes.
Que lhes dêem o seu sítio no inferno, e basta.

Roberto Fernández Retamar (Cuba)

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sexta-feira, 29 de abril de 2011

Charles Simic

 LARANJA COR DE SANGUE

Está tão escuro que o fim do mundo pode estar próximo.
Convenço-me que vai chover.
Os pássaros no jardim estão silenciosos.
Nada é o que parece,
Nem nós mesmos.
.
Na nossa rua há uma árvore tão grande
Que podemos esconder-nos todos nas suas folhas.
Nem precisaremos de roupas.
Sinto-me tão velho como uma barata, disseste.
Imagino-me passageiro de um navio-fantasma.

Agora nem um suspiro lá fora.
Se alguém abandonou uma criança no nosso patamar,
Deve estar a dormir.
Tudo está a vacilar na borda de tudo
Com um sorriso polido.

É porque há coisas neste mundo
Sem qualquer solução, disseste.
Nesse instante ouvi a laranja cor de sangue
Rebolar pela mesa e com um baque
Cair no chão rachada ao meio.

Charles Simic
PREVISÃO DE TEMPO
PARA UTOPIA E ARREDORES
selecção e tradução de
José Alberto Oliveira
Assírio & Alvim

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quinta-feira, 7 de abril de 2011

Fernando Guimarães

 PARA ALGUÉM DESCONHECIDO

O sono há-de tornar mais pesadas as suas palavras. É ali que se
                                                                                      [vêem
as nuvens apagadas, os campos depois de feitas as colheitas, os
simples vestígios de uma praia qualquer porque foi perto dela que
                                                                       [nasceu. Já uma
das mãos se inclina para a água e ao deixar entreabertos os dedos
acaba por sentir a sua frescura próxima, circular. Era este o aceno
que se aguardava como se fosse um mistério. Pode ficar mais
                                                                                   [próximo
o seu rumor. Mas o que ele escuta é diferente. Surpreende agora a
                                                                                       [poeira
que se ergue com o vento e reconhece outras veredas maiores. Está
                                                                                   [desenhado
um rasto de sangue como se fosse uma letra. Que sentido ela pode
                                                                                          [fazer
sozinha, mesmo que a pronuncie? Ah, nenhum. Ignoramos de que
                                                                                        [veias
este sangue chegava, mas ali mostraram-lhe como uma ave
                                                                          [principia
o seu voo quando tudo nos pareceu mais nítido. A volta das flores
descobre um odor que já tinha esquecido. É assim. Ao longo desta
                                                                                         [praia
veio encontrar ainda os barcos, as velas erguidas, a espuma
abandonada pelas ondas, o seu rumor. Poderia referir-se a cada
                                                                                     [ruga
do rosto como se fosse o caminho que só as lágrimas conseguiam
com tranquilidade percorrer. Sem que o tivesse esperado,
                                                                           [aproxima-se
mais o nevoeiro. É o que tantas vezes acontece junto a este mar
desconhecido. Abre de novo uma das mãos para que esteja perto
do vento, para que o sinta finalmente. E também para que ela se
                                                                                      [torne
maior. Sabemos que é assim que precisa desta mão porque já
                                                                         [perdeu tudo.

Fernando Guimarães
REQUIEM
Lições de Trevas
Edições quasi

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Fátima Maldonado

AS GRINALDAS DA GUERRA

Quem te disse
que não estaria longe
se regressada a casa
me afastasse?
Quem te disse que poderias falar-me
de mãe a bicho
de fonte a jarro
de tecto a telha?
O ódio que te tenho
como podes supor
que esmorece?
Os beijos sobre palmas
só permitem
céptico adiar de execuções
incrédulas entradas triunfais
em sábados de Ramos.
O irritante herói
a provocar traição
o desmedido orgulho
a disfarçar o medo
que não chegue depressa
o vil comboio.
E se não se detém
ou se não o vislumbra?
Por isso não pára de agitar-se
e chama a atenção com fogos e bandeiras
a espera insuportável
transforma-a em arena
acomete nas feras
farpas de abandono.

Fátima Maldonado
Fidelidades
cadeias de transmissão
frenesi
1999

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terça-feira, 29 de março de 2011

Giuseppe Ungaretti


NO ENTRE-SONO

Valloncello di Cima Quattro, 6 de Agosto de 1916

Presencio a noite violentada
O ar está crivado
como uma renda
pelos tiros de espingarda
dos homens
recolhidos
nas trincheiras
como os caracóis em sua casca

Parece-me
que uma pressurosa
multidão de canteiros
pica a calçada
de pedra de lava
das minhas ruas
e que eu o escuto
sem ver
no entre-sono

Giuseppe Ungaretti
Vida de um Homem
Texto bilingue
Tradução do italiano por
Luís Pignatelli.
Hiena Editora
1997

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quinta-feira, 17 de março de 2011

Luís Quintais


Arte privada

Deveria ter feito da minha música um amor mais silencioso
como se de uma arte privada se tratasse.

A ti, a quem falo de poesia, a ti
que assistes ao desenrolar de qualquer coisa que não compreendes,
respondo-te que também eu não compreendo,
que não há que compreender,
porque nada nos condena à fala
antes que as palavras aconteçam.

Por exemplo, esse poema começado numa manhã de Junho
e nunca terminado: um princípio de verão,
a janela que dá para o alcatrão sem tráfego serpenteando pelas
                            [colinas.
A rua de dia de semana
e o arquipélago da solidão despertando
as poucas coisas que procuro
e que o poema irá entretecer
se entretecer. -
A virtude que, cega,
vai conhecendo o seu caminho.
Desprende-se um fio luminoso da impossibilidade das palavras,
e se ficamos tristes não era para ficarmos,
pois não existem momentos irrepetíveis.
Eles aninham-se no sangue
e voltam a mergulhar-nos na experiência:
um dia de verão, um bosque, colinas
onde a serpente de alcatrão se enrola.
A ausência de tráfego como motivo.

A pouco e pouco vou recuperando a gravura.
Agora sei que havia uma ave sobre as colinas,
pois há sempre uma ave, ou a sombra dela,
nos meus poemas. Que havia água,
o cheiro das inusitadas chuvas
pela manhã de Junho.

O rumor da imagem colado aos dedos.
O ocre escuro das areias espalhado na mesa
é um símbolo da infância,
mas não o reconheço ainda.
O poema é uma enumeração que não teve lugar,
que nunca terá. Eu, à beira do fracasso,
não o reconheço ainda.

Enquanto isso tem lugar em mim o advento
do que me define,
e o barro de que sou feito coze por dentro.

Luís Quintais
 A Imprecisa Melancolia

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quarta-feira, 9 de março de 2011

Eduardo Bettencourt Pinto


          Homem consigo próprio

É por uma voz que ainda não escutou
que se levanta do inverno.
Esperou anos por uma sombra,
um pedaço de terra sem pedras,
uma janela donde pudesse olhar
a inviolável paisagem,
as distantes casas crepusculares, o pó
que derruba no silêncio
a tangível e cintilante melancolia do olvido.
Tomou a sua vida nas mãos, a transparência solar,
a fluidez ardente da paixão.
Nunca cantou do alto dos palcos da pesporrência
ou entre cintilantes plêiades de comissionistas
da moralidade,
mas nas derrubadas colunas dos templos,
junto às lágrimas e ao sangue
dos dias
em que morria por tanto amar
um ramo de nespereira quebrado
no olhar duma mulher.
Tem agora postura soturna, alquebrada pelo
reumatismo
e uma garça de angústia voa-lhe no coração.
Senta-se no átrio da igreja coçando os joelhos,
cabelos ralos adejando. As verrugas, acentuadas,
são profundas fissuras de mármore.
Alheio, vulnerável, quieto como um álamo,
não se lhe adivinha o andarilho.
Esteve em Nova Iorque, viu ópera,
foi assaltado por um drogado numa galeria
em S. Francisco enquanto se concentrava num
                                                             [Dalí,
comeu pizza olhando, perturbado,
decotes desinibidos numa praça de Paris,
passou nu frente à Casa Branca numa demonstra-
[ção contra a guerra, bebeu
tequila em esconsos povoados mexicanos
[até se esquecer do próprio nome, amou
tão febrilmente que julgou.
pisar de leve a superfície dum paraíso
abstracto. Viveu como um príncipe
deserdado,
e trabalhou numa fábrica de sabões tantos anos
que até a primavera lhe cheirava a sabonete.
Reformado, ombros caídos, mãos calosas
e deformadas pela solidão,
sentiu no peito o ressoar
da última morte.
Fez as malas, juntou fotografias da sua juventude
em estações de neve, entre amigos e abraçado
a uma irlandesa,
seus pais, vultos cinzentos
na idade da memória.
Mas só ao chegar à ilha,
estonteado e perdido,
compreendeu que a saudade
nunca leva um homem
ao princípio do tempo.

Eduardo Bettencourt Pinto
nove rumores do mar
antologia de poesia açoreana contemporânea
organização de eduardo bettencourt pinto
Instituto Camões

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domingo, 6 de março de 2011

Ângelo de Lima

EDD´ORA ADDIO... - MIA SOAVE!...

Aos meus amigos d'ORPHEU

- Mia Soave Ave!... - Alméa?!
 - Maripoza Azual... - Transe!...
Que d'Alado Lidar, Canse...
- Dorta em Paz... - Transpasse Idéa!...

 - Do Occaso pela Epopéa...
Dorto... Stringe... o Corpo Elance...
Vae A'Campa... - Il C'or descanse...
- Mia Soave-Ave!... -Alméa!...

-Não Doe Por Ti Meu Peito...
- Não Choro no Orar Cicio...
-E Profano... -Edd'ora... Eleito!...

- Balsame - a Campa - o Rocio
Que Cahe sobre o Ultimo Leito!...
-Mi'Soave!... Edd'ora Addio!...

Ângelo de Lima
À Sombra de Orfeu
Antologia
Selecção e Prefácio de
Maria Estela Guedes
Colecção Textos Esquecidos
em colaboração com a
Associação Portuguesa de Escritores
Guimarães Editores
1990

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sábado, 26 de fevereiro de 2011

Ruy Belo

 MORTIS CAUSA

Mulher de gestos dia a dia mais pequenos,
fosses tu qualquer coisa, uma cadeira ao menos
houvesse para ti sempre lugar em tua casa
e não ires um dia assim convencional serena
como papel ou lixo pela escada abaixo

Mulher espremida enquanto deste vida
e resumida à pequenina luz que se liberta
do gesto estritamente necessário linha recta
para anular o espaço entre a mão e a coisa
movimentos dos dias divergentes de outros dias
E tudo vai moendo e remoendo momento a momento
triturando colhendo arrepanhando
face ficta fraca e fIXa
a fruta em frente fita, frígida fremente

Ruy Belo
Boca Bilingue
Obra Poética
Editorial Presença

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sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

ÁNGEL GONZÁLEZ

INVENTÁRIO DE LUGARES PROPÍCIOS AO AMOR

São poucos.
A primavera tem muito prestígio, mas
é melhor o verão.
E também essas frestas que o outono
forma quando interfere com os domingos
em algumas cidades
já de si amarelas como bananas.
O inverno elimina muitos sítios:
gonzos de portas orientadas a norte,
margens de rios,
bancos de jardins.
Os contrafortes exteriores
das velhas igrejas
deixam às vezes vãos
a utilizar, ainda que a neve caia.
mas desenganemo-nos: as baixas
temperaturas e os ventos húmidos
dificultam tudo.
As leis, além do mais, proíbem
as carícias (à excepção
de determinadas zonas epidérmicas
sem qualquer interesse -
em crianças, cães e outros animais)
e "não tocar, perigo de ignomínia"
pode ler-se em milhares de olhares.
Para onde fugir, então?
Por todo o lado olhos de viés,
córneas torturadas,
implacáveis pupilas,
retinas reticentes,
vigiam, desconfiam, ameaçam.
Resta talvez o recurso de andar sozinho,
de esvaziar a alma de ternura
e enchê-la de fastio e indiferença,
neste tempo hostil, propício ao ódio.

ÁNGEL GONZÁLEZ
Tratado de Urbanismo
tradução de Helder Moura Pereira
Fenda
2001

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Gabriela Mistral

DESOLACIÓN

La bruma espesa, eterna, para que olvide dónde
me ha arrojado la mar en su ola de salmuera.
La tierra a la que vine no tiene primavera:
tiene su noche larga que cual madre me esconde.

El viento hace a mi casa su ronda de sollozos
y de alarido, y quiebra, como un cristal, mi grito.
Y en la llanura blanca, de horizonte infinito,
miro morir intensos ocasos dolorosos.

¿A quién podrá llamar la que hasta aquí ha venido
si más lejos que ella sólo fueron los muertos?
¡Tan sólo ellos contemplan un mar callado y yerto
crecer entre sus brazos y los brazos queridos!

Los barcos cuyas velas blanquean en el puerto
vienen de tierras donde no están los que son míos;
y traen frutos pálidos, sin la luz de mis huertos,
sus hombres de ojos claros no conocen mis ríos.

Y la interrogación que sube a mi garganta
al mirarlos pasar, me desciende, vencida:
hablan extrañas lenguas y no la conmovida
lengua que en tierras de oro mi vieja madre canta.

Miro bajar la nieve como el polvo en la huesa;
miro crecer la niebla como el agonizante,
y por no enloquecer no encuentro los instantes,
porque la "noche larga" ahora tan solo empieza.

Miro el llano extasiado y recojo su duelo,
que vine para ver los paisajes mortales.
La nieve es el semblante que asoma a mis cristales;
¡siempre será su altura bajando de los cielos!

Siempre ella, silenciosa, como la gran mirada
de Dios sobre mí; siempre su azahar sobre mi casa;
siempre, como el destino que ni mengua ni pasa,
descenderá a cubrirme, terrible y extasiada

Gabriela Mistral
Desolación, 1922

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