domingo, 7 de dezembro de 2008

Inês Lourenço

Faz-me frio este Outono

Faz-me frio este Outono
a boiar sobre o corpo,
a poesia sem ancas,
a música passada
por ovo e pão ralado, faz-me
frio este fender castanho
este horizonte ao espelho,
faz-me frio o esmalte descascado
a tapar o interior
revelho.

de 'Cicatriz 100%', Um Quarto com Cidades ao Fundo

Inês Lourenço
Desfocados Pelo Vento
A Poesia dos anos 80, agora
editora quasi



CÂMARA ESCURA

I.

É escura a pupila, mesmo
na íris mais azul. Por ela, esse
mínimo círculo se devolvem as
incontáveis formas do mundo. É escuro
o interior do tórax, onde
se diz, dura o coração, esse músculo
facínora, impulsor de sangues. É escuro
o aquário amniótico, o púbis
o mamilo dentro da boca. São escuros
todos os lugares
que a luz na sua feroz velocidade
não mata.

2.

Não sei quem
foi a minha mãe, alguma
eva trocando por frutos incertos
a monotonia do interminável. Não
sei se foi a carmen, a virtuosa
penélope, a lady
macbeth ou aquela senhora
amortalhada em cartas e
grades; eurydice ou brunnhild
ou outra precipitada
às chamas.

Inês Lourenço
TELHADOS DE VIDRO
N.º 2 Maio 2004
Averno

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