terça-feira, 14 de outubro de 2008

Religiões





Tóquio, 1 de Junho de 1987

Caro Mário,

talvez tu possas desvendar-me o mistério da alma ocidental. Sei que vós costumais falar do mistério da nossa alma de orientais, e esta recíproca incompreensão parece-me muito estranha. Todos somos seres humanos e nada nos faz diferentes a não ser a nossa história. Mas hoje estamos cada vez mais próximos uns dos outros e, no entanto, continuam a existir certas diversidades que eu não sou capaz de compreender.

Tomados em conjunto, vós pareceis-me ao mesmo tempo científicos e mágicos, lógicos e místicos, cépticos e supersticios. Como é que se pode ser as duas coisas ao mesmo tempo? Vós elaborastes todas as ciências modernas mas tendes também uns estranhos mitos antigos. Como é que se pode pensar ao mesmo tempo das duas maneiras? Eis o que na vossa alma não consigo perceber.
Ou não se reduzirá tudo isso a uma coisa muitíssimo simples mas, nesse caso, muito feia, a saber: que vós, como tu uma vez disseste, sois «litúrgicos» - isto é, não credes mas fingis crer e apenas respeitais formalismos e hábitos antigos? Baptizais-vos, crismais-vos, comungais e casais na igreja, fazeis-vos abençoar na igreja depois de morrer e sois sepultados num «campo santo». Trazeis ao pescoço medalhinhas com a efígie da Senhora e alguns de vós até fazem o sinal da cruz antes de dar um mergulho ou ao passar em frente de uma imagem religiosa; ensinais religião nas escolas e convidais os padres a entrar no elenco das autoridades do Estado, mas afinal viveis tranquilamente como pessoas que têm na cabeça coisas bem diferentes: folguedos, devassidão, violências e uma ciência completaamente laica. Ora isso parece-me mais paganismo que cristianissmo - se bem compreendi a distinção que vós próprios fazeis entre estes dois modos de pensar e de viver.
Eu não me escandalizo pela vossa maneira de viver, mas o que não compreendo é essa separação do modo de pensar e do modo de viver - se é que nisso reside a questão. Claro que isto não se aplica a todas as pessoas; mas, para quem vos observa de fora, aplica-se ao conjunto dos europeus, ou ocidentais, e cristãos.
Penso, principalmente, na vossa religião cristã e parece-me que, embora acreditando muito pouco nela, lhe dais um lugar muito importante na vida pública. Além disso, quando recordo o pouco que dela me ensinaram em pequena na minha escola cristã de Tóquio, continuo a sentir uma grande curiosidade intelectual pelos seus pontos de fé - que, segundo me parece, devem significar algo de muito diferente daquilo que afirmam mas que, pelo que afirmam, continuam a parecer-me verdadeiras extravagâncias.

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2 . Nós, ocidentais, e a religião

Roma, 10 de Junho de 1987

Cara Yúkiko,

A alma humana é insondável e, apesar disso, tu pedes-me que a sonde.
Tu, filha de uma cultura que, embora não ignore o sentido da vida, ignora dogmas e catecismos e não possui um clero encarregado de propagandeá-los com enorme pompa como verdades absolutas, e até como palavra divina, vens pedir-me que te desvende aquilo que te parece ser o nosso enigma.
Como será possível crer, isto é, «desejar saber», uma coisa acerca da qual se sabe que «não se pode saber? ». Pois é isso, de facto, aquilo a que na nossa tradição damos o nome de «fé» e que vós não tendes. Como será possível este perpétuo conflito interior entre a razão e a fé, entre a filosofia e a teologia, entre a inteligência e a vontade, entre o só ter a certeza de coisas evidentes e a presunção de outras que contrariam todas as evidências? Como pode uma pessoa desprezar a sua parte racional e criar dentro de si espaço não já para as emoções e os afectos, que também se incluem na natureza humana, mas para as emoções e afectos disfarçados de argumentos racionais e para a sua intromissão no terreno da razão? Na verdade, toda e qualquer «fé» consiste nisso. E tu pretendes saber como surgiu e como se justifica historicamente esta cisão da nossa consciência e perguntas-me como é possível que exactamente esta nosssa civilização, baseada mais que qualquer outra numa ciência que nunca se dispõe a aceitar senão aquilo que pode ser demonstrado e posto em prática, seja igualmente a civilização que acredita mais que qualquer outra em mitos indemonstráveis e que lhes dá lugar não somente no íntimo das consciências como também nos espaços abertos da vida pública.

Sim, estimada Yúkiko: a alma humana é realmente innsondável; mas, exactamente por isso, porquê renunciar a sondá-la? Pois são os seus próprios abismos insondáveis que a tal nos convidam. E tu própria me convidas também.


Leitura Laica da Bíblia
Mario Alighiero Manacorda
Caminho

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