terça-feira, 11 de novembro de 2008

Lima de Freitas - capas de livros policiais









I

Marliyn Pringle, loura, roliça e com dezasseis anos, morava em Fulham. Usava sapatos de salto alto com ar constrangido, meneava as ancas no estilo da sua cançonetista pop preferida e gostava da maneira como a sua saia curta oscilava a cada passo.
Quando saira da escola, aos quinze anos, sonhava ser cabeleireira, mas o pai tivera outras ideias e mandara-a estudar numa escola comercial, durante doze meses, e depois arranjara-lhe um emprego de dactilógrafa no escritório de um corretor.
Na manhã de 3 de Abril, Marilyn levantou-se tarde
e não teve tempo de tomar o pequeno almoço. Viu-se aflita para se vestir, pentear e retocar a maquilhagem da véspera em menos de vinte minutos.
Ao sair, deu-lhe ainda mais pressa a voz queixosa da mãe, que lhe ralhava: « ... não admira que te custe a levantar! Deitas-te a umas horas escandalosas. Se o teu pai soubesse a que horas chegaste a casa ontem à noite ...
À entrada da estação do metropolitano de Parson's Green encontrou uma amiga. Não se viam desde a véspera à noite e tinham muito que conversar: roupas, rapazes, o Top Twenty, o problema de viver com os pais, etc., etc. Falaram sem parar a partir desse momento, e continuavam a tagarelar quando em Notting Hill Gate mudaram para a Central Line.
Marilyn gostava da companhia de Sandra, que era uma rapariga feiota, pacata, admiradora do cabelo e do gosto para se vestir da amiga. Nenhuma delas ouvia o que a outra dizia, mas as confidências que mutuamente se faziam ajudavam a passar o tempo.
Só quando o andamento do comboio começou a afrouxar, perto da estação de Tottenham Court Road, Marilyn se lembrou, de súbito, da asneira que fizera.
-Oh, esqueci-me por completo! Agora estou bem arranjada!
-Que foi?
-Esta manhã não devia ir direita ao escritório; Miss Dodd pediu-me que lhe fizesse um recado... Vínhamos tão entretidas, a conversar, que nunca mais me lembrei. Parece-me que este vai ser um daqueles dias ...

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Os seus saltos altos não tinham sido feitos para andar depressa e embora ela estugasse o passo o mais que podia, ao longo da Princess Road, os cinco minutos de caminho pareceram-lhe intermináveis. Por muito que corresse, não tinha esperanças de chegar ao escritório antes das dez e meia, pelo menos.
«A esta, hora já Miss Dodd está a olhar para o relógio. Se não me vê chegar, começa a ferver e não quererá saber de desculpas para nada. Mal eu abrir a boca, desatará a berrar ... »
Um rapaz que cortava a relva, à saída de Grove Court, assobiou e perguntou-lhe:
-Onde é o fogo, lourinha?

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Do lado de fora da porta do apartamento uma mulher servia-se de um aspirador, mas ao vê-la aproximar-se desl1gou o aparelho e meteu dentro do lenço uma ou duas madeixas de cabelo .. Os seus olhinhos pequenos observaram Marilyn de alto a baixo e a mulher comentou:
-Bonito dia ... Parece que a Primavera chegou, finalmente, não parece ?

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O apartamento estava mergulhado em penumbra. Dois raios sol que entravam por uma abertura nas cortinas da sala e incidiam na carpeta permitiram-lhe ver os contornos dos móveis: um grande sofá, várias poltronas confortáveis, uma mesa, um armário com portas de vidro, algumas estantes e um aquecedor eléctrico montado na parede oposta à janela.

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Ao longo do corredor soaram os passos pesados e firrmes de um homem, que se tornaram mais lentos à medida que se aproximavam. Um homem tossiu e a jovem ouviu tilintar chaves.
De súbito, teve medo. Tinha todo o direito de se encontrar no apartamento, mas se o homem entrasse e a visse ali, de cortinas corridas e luz apagada, podia pensar que a sua intenção era roubar qualquer coisa.

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Depois apoderou-se dela um novo medo. Talvez o ladrão fosse o homem que se encontrava lá fora ... Não essperaria encontrar ninguém no apartamento, àquela hora ... e quando percebesse que ela o poderia identificar procederia de modo a que jamais pudesse denunciá-lo à Polícia .

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Do lado de fora, o homem tossiu outra vez e deixou cair as chaves.
Marilyn aproveitou o tempo que ele levou a apanhá-las para acender a luz da sala e quase correr para o telefone. Com o coração a bater desabaladamente, levanntou o auscultador e marcou L ...
«Se entrar antes de me responderem, morrerei... Sei que morrerei. .. »
O ...
«Devia ter marcado 999. Quem quer que ele seja, não se atreveria a aproximar-se de mim se soubesse que a Policia estava à escuta ... »
N ...
Girou uma chave na fechadura da porta do outro lado do corredor e as dobradiças, que precisavam de lubrificação, gemeram. O homem tossiu de novo, a porta, fechou-se e reinou outra vez o silêncio, cortado apenas pelo barulho distante do aspirador.
Marilyn respirou fundo, longamente, e esperou que o bater do seu coração se normalizasse, antes de marcar o resto do número do escritório. Quando ouviu a cammpainha tocar, do outro lado da linha, pegou num lápis que se encontrava junto do livro de apontamentos e começou a brincar com ele, enquanto ensaiava o que diria a Miss Dodd.

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- Fala Marilyn, Miss Dodd, Marilyn Pringle. Estou a falar de Grove Court. Achei melhor dizer-lhe onde me encontro, no caso de estranhar a minha demora ...
Calou-se, ao ouvir novos passos no corredor, passos que, desta vez, lhe pareceram furtivos.
Cheia de medo, virou-se para a porta e, pela primeira vez, viu a parte oculta da cadeira, que fora puxada para junto da mesa do telefone.
Abriu a boca e teve a impressão de que os seus cabelos se punham em pé. Enquanto se esforçava por recuperar o fôlego perdido, Miss Dodd barafustava:
-Claro que já estranhei a sua demora! Sabe que horas são, minha menina? Já aqui devia estar e, aparenntemente, ainda nem ...
Marilyn Pringle não ouviu mais nada. Apavorada, deixou cair o auscultador e encolheu-se contra a mesa. Só então conseguiu gritar.

Hartley Howard
Madrugada Sangrenta
Colecção Vampiro
Edição "Livros do Brasil" Lisboa

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