terça-feira, 4 de novembro de 2008

Rainer Maria Rilke

O PINTOR DE NUVENS

Ei-los mais uma vez sem recursos, inúteis, enganados e
a todos os respeitos iludidos. Cada um começa por si
próprio e despreza todos os outros, do mais alto ao
mais baixo da hierarquia.
Dominado por este sentimento, o barão declarou:
- Já se não pode vir a este café. Não há jornais, o serviço já
não é como dantes, nada!
Os outros são absolutamente da mesma opinião.
Ei-los portanto sentados em volta da mesa de mármore, que
pergunta a si própria o que é que aqueles três indivíduos
podem esperar dela. Querem a paz, a paz, muito simplesmente.
O poeta exprime esse sentimento com uma eloquência tão
rápida quanto enérgica:
- Patetices - diz ele meia hora depois.
E de novo os outros se manifestam da mesma opinião.
Continuam a esperar sabe Deus o quê.
O pintor começa a balancear uma perna. Contempla-a durante algum
tempo com ar grave. Quando, finalmente, compreendeu o movimento,
pôs-se a cantar lentamente e num tom sentimental:

Embrutecimento, embrutecimento,
Ó tu, meu único prazer. ..

Vamos, é já tempo de levantar a sessão. Um após outro, vão-se
embora, de gola levantada. Porque o tempo está de acordo com o
que sentem. Dá vontade de chorar.
Que fazer? Só resta um recurso: ir entre as cinco e as seis a casa de
Vladimiro Lubowsky. Evidentemente. Vamos lá então! Rua do Parque, 17.
Casa de artistas.
Só se consegue chegar a casa de Vladimiro Lubowsky passsando através
das obras. Toda a oficina está cheia de fumo. Quem entra pode considerar-se
com sorte quando consegue, através desse nevoeiro original, chegar pelo
caminho mais curto ao velho divã usado em que Vladimiro habita dia e noite.
Hoje, como sempre, naturalmente. Sem se alterar, espera tranquilamente as
três «vítimas da existência». Estabelecem-se em círculo à volta dele, cada
um à sua maneira e segundo a sua disposição. Encontraram em qualquer
parte Chartreuse verde e cigarros. Servem-se sem cerimónia, com um ar de
pessoas que se sacrificam. Os cigarros são até muito bons. Ah! Meu Deus, que é
que a gente não faz por amor desta miserável existência?
O poeta inclina-se para trás.
- Que maldita vida esta! Boa para diletantes, não? Vladimiro Lubowsky não
responde.
Os outros esperam complacentemente.
Sentem-se tão bem naquela penumbra perfumada! É como se ela os tomasse
nos braços e os embalasse.
- Então que faz, Lubowsky, para não ter aqui nenhum
cheiro a aguarrás? - pergunta o pintor.
E o barão acrescenta:
- Dir-se-ia que tem flores em algum ponto ...
Silêncio. Vladimiro mantém-se atrás das nuvens.
Mas os três amigos são pacientes. Têm, aliás, tempo e ... Chartreuse.
Sabem que é preciso esperar. Tudo que tem que acontecer,
acontece.
Só isto e nada mais:
Fumo, fumo, muito fumo, depois palavras vagarosas e caras que
atravessam o mundo e admiram as coisas de longe. Ergue-se a
cortina de nuvens. Secretas ascensões.
Por exemplo:
Fumo. Segue-se: «Os homens afastam cada vez mais os seus olhos
de Deus. Procuram-no na luz, que se torna cada vez mais álgida e
forte à medida que sobe.» Fumo.
«Mas Deus espera noutro ponto ... espera ... no fundo de todas as
coisas. Muito longe. Ali onde se encontram as raízes. Ali onde há
calor e sombra,» Fumo.
E o poeta, bruscamente, começa a andar de cá para lá. Pensam
os três em Deus, que se encontra em qualquer parte,
atrás das coisas ... Sabe-se lá onde.
E mais tarde;
«Ter medo ... ?» Fumo. «Para quê?» Fumo.
«Está-se sempre acima dele. Como um fruto debaixo do qual
se tivesse uma linda taça de ouro, brilhando no meio da relva, E
'Quando o fruto amadurece, desprende-se.»
E eis que o pintor entreabriu a cortina de fumo com um gesto
violento.
- Santo Deus!- exclamou ele, e descobriu, de repente, no
divã um homenzinho pálido com olhos estranhos. Dois olhos
cheios de um luto eterno por detrás do seu brilho e de uma
feminina doçura.
E mãos geladas.
O pintor fica perplexo e desajeitado ao ver aquilo. Não sabe muito
bem que dizer. Felizmente o barão intervém e diz:
- Tem de pintar aquilo, Lubowsky.
Pois quê? O próprio barão, apesar de tudo, repete: «Sim, na verdade,
Lubowsky. Na verdade!» E toma, contrafeito, um tom de mecenas.
Vladimiro, contudo, atravessou um grande espaço. Um momento de
terror, e depois um obscuro espanto. Tem, finalmente, um sorriso e
murmura, com ar de sonho:
- Oh!, sim. Amanhã.
Fumo.
E agora todos começam a sentir falta de espaço na oficina do artista.
Andam a todo o momento a dar uns contra os outros. Saem.
- Até mais ver, Lubowsky.
Na primeira esquina apertam as mãos com inútil ardor. Sentem pressa
de se deixarem.
Vai cada um deles para muito longe e cada um por seu lado. Um cafezinho
simpático. Nem um gato, e lâmpadas que oscilam. O poeta pôs-se a escrever
versos no envelope de uma carta que recebeu. A sua letra toma-se cada vez
mais pequena e rápida, sente acorrerem-lhe muitos, muitos versos.
Além, no quinto andar, na oficina do pintor, febre de preparativos para amanhã.
Assobiando entre dentes uma canção, sacudiu a poeira que cobria o cavalete.
Poeira já antiga. Eis uma tela nova, límpida como uma fronte, uma fronte que se
quisesse coroar.
Só o barão está ainda a caminho. «Dez horas e meia. Teatro Olímpia. Saída
dos artistas», disse ele a um cocheiro antes de continuar tranquilamente o seu
caminho. Tem ainda o tempo necessário para descansar e cuidar do vestuário.
Nenhum deles pensa em Vladimiro Lubowsky.
Vladimiro, contudo, fechou a porta, esperando o cair da
noite. Lá está ele sentado, muito encolhido, na borda do divã
chorando nas mãos brancas e geladas. As lágrimas afluem-lhe suavemente,
levemente, sem esforço, sem angústia. É esta a única coisa que não traiu ainda
e que só a ele pertence: a solidão.

Rainer Maria Rilke
O Pintor de Nuvens
e outros contos
Tradução de José Marinho
Bonecos rebeldes

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