terça-feira, 25 de janeiro de 2011
terça-feira, 13 de abril de 2010
ALBERT CAMUS

Os curiosos acontecimentos que servem de assunto a esta
história produziram-se em 194 ... , em Oran. Segundo a opinião geral, não estavam aí no seu devido lugar, antes saíam um pouco do habitual. A primeira vista, Oran é, com efeito, uma cidade vulgar, que não passa de uma prefeitura francesa na costa argelina.
A própria cidade, confessemo-lo, é feia. Com 0 seu aspecto calmo, é preciso algum tempo para se perceber o que a torna diferente de tantas outras cidades comerciais em todas as
latitudes. Como imaginar, por exemplo, uma cidade sem pombas, sem árvores e sem jardins, onde não se sente 0 bater de asas nem o sussurro de folhas, uma cidade neutra, para dizer tudo? Só no céu se lê aí a mudança das estações. A Primavera apenas se anuncia pela qualidade do ar ou pelos cestos de flores trazidos por rapazitos dos arredores; é uma Primavera que se vende nos mercados. Durante 0 Verão, o Sol incendeia as casas demasiado secas e cobre as paredes de uma cinza cinzenta; então, só é possível viver à sombra das persianas corridas. No Outono é, pelo contrário, um dilúvio de lama. Os dias bonitos só vêm no Inverno.
Uma maneira cómoda de travar conhecimento com uma cidade é descobrir como lá se trabalha, como se ama e como se morre. Na nossa pequena cidade, talvez por efeito do clima, tudo se faz ao mesmo tempo, com 0 mesmo ar frenético e distante. Quer dizer que as pessoas se aborrecem e se aplicam a criar hábitos. Os nossos concidadãos trabalham muito, mas só para se enriquecerem. Interessam-se principalmente pelo comércio e ocupam-se, em primeiro lugar, segundo a sua própria expressão, em fazer negócios.
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A Peste
Albert Camus
Colecção Miniatura
Edição "Livros do Brasil" Lisboa

PRIMEIRO ACTO
CENA PRIMEIRA
Numa sala do palácio estão agrupados alguns patrícios que denotam agitação. Entre eles destaca-se um muito idoso.
PRIMEIRO PATRÍCIO
Nada.
VELHO PATRÍCIO
Nada de manhã, nada de tarde.
SEGUNDO PATRÍCIO
Três dias passados, e nada.
VELHO PATRÍCIO
Os mensageiros partem, os mensageiros voltam. Sacodem a cabeça e dizem: "Nada".
SEGUNDO PATRÍCIO
Procura-se em toda a parte, não há nada a fazer.
PRIMEIRO PATRÍCIO
Porque nos estamos a inquietar antes de tempo?
Aguardemos. Voltará talvez como partiu.
VELHO PATRÍCIO
Vi-o sair do palacio. Tinha um olhar estranho.
PRIMEIRO PATRÍCIO
Também eu, e perguntei-Ihe o que tinha.
SEGUNDO PATRÍCIO
Respondeu?
PRIMEIRO PATRÍCIO
Uma única palavra: «Nada».
(Pausa. Entra Helicon, comendo uma cebola).
SEGUNDO PATRÍCIO , sempre nervoso.
É inquietante.
PRIMEIRO PATRÍCIO
Ora, todos os rapazes são assim.
VELHO PATRÍCIO
Claro, a idade tudo perdoa.
SEGUNDO PATRÍCIO
Acha?
PRIMEIRO PATRÍCIO
Esperemos que esqueça.
VELHO PATRÍCIO
Evidentemente! Uma perdida, dez encontradas.
HELICON
E quem vos garante que se trata de amor?
PRIMEIRO PATRÍCIO
Que mais poderia ser?
HELICON
Talvez o fígado. Ou apenas o desgosto de vos ver todos os dias.
Suportaríamos muito melhor os nossos contemporâneos se eles de vez em quando mudassem de ventas.
Mas não, a ementa não varia. É sempre o mesmo fricassé.
VELHO PATRÍCIO
Prefiro pensar que se trata de amor. É mais enternecedor.
HELICON
E tranquilizador. Sobretudo tranquilizador. É uma doença do género das que não poupam nem os inteligentes nem os estúpidos.
PRIMEIRO PATRÍCIO
Os desgostos não são eternos, felizmente. Sois capazes de sofrer mais de um ano?
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Calígula
seguido de
O Equívoco
Albert Camus
Colecção Miniatura
Edição "Livros do Brasil" Lisboa
Tesouros do alfarrabista
Etiquetas: antiguidades, literatura
segunda-feira, 29 de março de 2010
quarta-feira, 6 de maio de 2009
terça-feira, 24 de março de 2009
domingo, 8 de fevereiro de 2009
Goëthe

A 8 de Fevereiro
Há oito dias que cai sôbre nós um medonho temporal e isto faz-me bem.
Desde que aqui estou, nunca rebrilhou no céu um dia formoso que alguém
mo não inutilizasse ou estragasse. Chove, venta, cai granizo, há degêlo -
eu penso que, em casa, não pode ser pior do que lá fora e vice-versa.
Quando , de manhã, o sol prometia um lindo esplendor, nunca pude dei-
xar de exclamar: «Lá vai esta gente receber uma mercê divina, mercê que
não saberão aproveitar». Nada existe que não destruam reciprocamente:
saúde, bom nome, alegria, descanso. E, na grande maioria, por estupidez,
incompreensão e estreiteza de vistas; quando a gente os ouve, afirmam sem-
pre falar com a melhor das intenções. Por vezes, sinto o desejo de lhes rogar
de joelhos que não remexam, com tanto furor, nos próprios intestinos.
WERTHER
Sua paixão e sofrimento
Goëthe
Tradução de Maria Henriques Osswald
Livraria Civilização Editora
Etiquetas: antiguidades
Alfarrabistas

Pequenas compras nos alfarrabistas e um poema que me parece adequado ao momento político
OS DOIS SUJOS
Um moleiro
E um carvoeiro
Travaram-se de razões;
Era um da côr da neve,
Outro da côr dos carvões,
Cada qual d'elles teimava
Que o outro mais sujo estava;
Tinham ambos a mão leve,
Choveram os bofetões,
E qual foi o resultado?
Um ao outro se sujou;
Pois ficou
O carvoeiro
Empoado;
E o moleiro
Enfarruscado.
Assim fazem as comadres,
Se começam a ralhar;
Assim fazem os compadres,
Se a politica os separa:
Cada qual, sem se limpar,
Consegue o outro sujar;
Nem ó isso cousa rara.
Henrique O´Neill
(1823-1889)
As melhores paginas da poesia portuguesa
Albino Forjaz Sampaio
Livraria Popular de Francisco Franco
1931
Etiquetas: antiguidades
sexta-feira, 9 de janeiro de 2009
A saia
EI-rei O. João III lançou um tributo ao povo para as fes-
tas do casamento do principe D. João, seu filho.
Havia então em Montemór-o-Novo uma mulher muito po¬bre dos bens da terra, mas muito rica dos do céo; sua vida era ouvir uma missa pela manhã, resar o seu rosario e vir para casa e fiar linho, com o que se sustentava. Eis que um dia chegam os ministros da justiça, e lhe pediram um tostão, que na finta lhe fôra lançado; disse a mulher que n'aquella casa o não havia, e que isto sentia ella muito, porque desejava servir o seu rei.
Entraram os ministros, e tomaram-lhe uma saia com que ia á missa. Que faria esta pobre mulher? Eram as lagrimas tantas, que parece subiam aos céos os suspiros e as ancias. E foi tanto o excesso da mulher, que chegou aos ouvidos d'el-rei, o qual disse que sua tenção não era vexar aos pobres.
Comtudo o principe morreu em tempo de nove mezes.
Logo a rainha D. Catharina começou a dar taes demonstra¬ções de tristesa, que chegou a se pôr ás contas com Deus.
_ E bem, senhor, oito filhos me levastes, agora este que era o lume dos meus olhos, me arrebataes? Que é is¬to? Que peccados tenho commeltido contra vossa divina magestade?
Ouvindo o rei isto, lhe disse:
- Senhora, não vos queixeis de Deus, não vos matou elle vosso filho. Sabeis quem o matou? A saia de Maria -Fernandes de Montemór-o-Novo.
Observaremos que o escriptor era ecclesiastico, e que não tanto vociferava contra o vexame de injustos impostos. como contra os que se exigiam aos ecclesiasticos e ás pes¬soas que serviam a Deus.
A saia de Maria Fernandes, que o fisco tomára, era aquella com que ia á missa, e por isso o alludido escriptor insiste no caso.
Mas, comtudo, outros exemplos apresenta, que são me¬ras coincidencias casuaes.
Todavia, sempre os portuguezes reagiram contra os tri¬bulos vexatorios, e de que não havia immediata necessidade.
SUMMARIO DE VARIA HISTORIA
NARRATIVAS, LENDAS, BIOGRAPHIAS, DESCRIPÇÕES DE TEMPLOS E MONUMENTOS,
ESTATISTICAS, COSTUMES CIVIS, POLITICOS E RELIGIOSOS DE OUTRAS ERAS
por RIBEIRO GUIMARÃES
1874
Etiquetas: antiguidades, costumes
sexta-feira, 2 de janeiro de 2009
Mendigos

Antigamente os mendigos constituiam uma classe social reconhecida. Bem póde dizer-se, que se considerava necesssaria a mendicidade ou mendignidade, para que podesse haver caridade. Que, valor teria o caldeirão dos conventos, se não houvera
mendigos? Em quanto as almas piedosas fundavam esplendidos conventos de frades mendigos, emquanto, o acto mais religioso d'essas epochas era fundar e dotar conventos e mosteiros, destinados a receber ociosos,não se tratava de acudir áquelles, que por invalidez proveniente de velhice ou de enfermidade, se viam obrigados a mendigar. Dizia-se com, orgulho, tantos mil pobres recebem a caridade do caldo das portarias, dos conventos, mas ninguem sentia a necessidade de crear e estabelecer hospicios para recolher os mendigos.
Alguns conventos menos, e alguns hospicios ou asylos mais, e a mendicidade não seria tanta; e os verdadeiros desgraçados teriam um abrigo. Haveria menos ociosos de gordo cachaço, porém haveria mais desgraçados soccorridos. Mas a mendicidade era inherente á existencia dos conventos, era portanto natural animal-a e protegel-a. Sem mendigos, os frades deixavam de ser caritativos. Muita gente se lembrará do grande numero de mendigos que vagueavam por essas ruas, antes de 1834, e que todos os dias, pelo meio dia, se juntavam nas portarias dos conventos. Todos se recordam das ascarosidades que, em constante exposição e no meio de grandes alaridos, percorriam a cidade. Era um espectaculo ignobil e um documento tristissimo da atrasada civilisação d´esses tempos.
Acudiram-nos estas reflexões, lendo em um livro antigo, que os mendigos tinham n'esta cidade tres confrarias, sendo duas d'estas a do Senhor Jesus, na freguezia de Santo André, que era dos cegos, e a de Santo Aleixo, na Misericordia, que era universal. Concorriam os mendigos, reunidos nas suas confrarias, a varias funcções publicas - d'isto subsistem documentos - e usavam levar nas mãos cannas verdes.
Quando no anno de 1588 foram transferidas as famosas relíquias existentes na egreja da Misericordia para a casa professa dos jesuitas de S.Roque, os mendigos figuraram no acto. A trasladação das reliquias,que ainda hoje estão na egreja de S. Roque,
verificou-se com grande solemnidade no dia 25 de janeiro d'aquele anno, e no dia 27 sahiram os mendigos procissionalmente, dirigindo se á egreja de S. Roque.
O licenciado Manuel de Campos, na sua Relação do solemne recebimento das Santas Reliquias, assim descreve a procissão dos mendigos:
«Os pobres, que por causa das suas doenças e aleijões, não tinham facil entrada para se irem offerecer ás santas reliquias, acharam invenção para se lhes dar logar... n´esta procissão iam as mulheres de' uma parte, e os homens de outra com umas
cannas verdes nas mãos, com capella de canto de orgão e charamellas que houve a confraria de Santo Aleixo, cuja imagem traziam em uma charola, por serem seus confrades,cousa muito nova, e de grande consolação vêr quasi todos os pobres de Lisboa, juntos em piedoso exercicio, virem a visitar as santas reliquias como fizeram.»
Outra menção se acha da confraria dos mendigos figurando em actos publicos.
Quando o arcebispo de Lisboa, D. Rodrigo da Cunha, regressou a Lisboa da sua viagem a Madrid, fez a sua entrada solemne na capital, no dia 21 de maio de 1639. O arcebispo foi procissionalmente da egreja da Misericordia para a Sé, e os mendigos
figuraram no prestito como confraria. D. Manuel Caetano de Sousa no seu Catalogo Historico, diz o seguinte, alludindo á solemne entrada do arcebispo D. Rodrigo da Cunha:
«0 que fez que esta procissão fosse um glorioso triumpho d'este prelado, foi que iam n'elle todos os pobres da cidade com cannas verdes na mão, mudas as linguas mas chorando os olhos e saltando os corações de alegria.»
Convem, saber que Santo Aleixo,que os mendigos tomavam por patrono, foi um homem muito original. Era natural de Roma, e filho de um senador.
Como viesse a casar na primeira noite fugiu da esposa, deixando-a intacta e foi-se a perigrinar pelo mundo; depois regressou a Roma, e esteve recolhido em casa de seu pae, em habito de pobre, zombando do mundo, diz um escriptor, com esta nova
invenção. Mas depois de morto descobriu-se a farça do bom homem, que demais a deixou declarada em um escripto seu, e isto bastou para que o canonisassem, e assim os mendigos de Lisboa o escolheram para seu padroeiro
É facil de imaginar o que seria a antiga mendicidade, tendo um modo de vida auctorisado; todos os mandriões a vadios se alistavam n´essas confrarias. Victor Hugo, no seu maravilhoso romance Notre Dame de Paris, descrevendo a Côrte dos Milagres, desenha com vivas côres todos os artificios da mendicidade, e como os miseraveis que especulavam com a caridade publica, se caracterisavam para a comedia que diariamente representavam. Assim devia de acontecer em Lisboa, onde o ser mendigo era uma profissão, e onde quantos mais mendigos houvesse, maior era a gloria da religião e maior a honra para os frades.
SUMMARIO DE VARIA HISTORIA
NARRATIVAS, LENDAS, BIOGRAPHIAS, DESCRIPÇÕES DE TEMPLOS E MONUMENTOS,
ESTATISTICAS, COSTUMES CIVIS, POLITICOS E RELIGIOSOS DE OUTRAS ERAS
por RIBEIRO GUIMARÃES
1872
Etiquetas: antiguidades, costumes
quinta-feira, 27 de novembro de 2008
Federico García Lorca

GACELA V
DEL NIÑO MUERTO
Todas las tardes en Granada,
todas las tardes se muere un niño.
Todas las tardes el agua se sienta
a conversar con sus amigos.
Los muertos llevan alas de musgo.
El viento nublado y el viento limpio
son dos faisanes que vuelan por las torres
y el día es un muchacho herido.
No quedaba en el aire ni una brizna de alondra
cuando yo te encontré por las grutas del vino.
No quedaba en la tierra ni una miga de nube
cuando te ahogabas por el rio.
Un gigante de agua cayó sobre los montes
y el va11e fue rodando con perros y con lirios.
Tu cuerpo, con la sombra violeta de mis manos,
era, muerto en la ori11a, un arcángel de frio.
FEDERICO GARCÍA LORCA
DIVAN DEL TAMARIT
LLANTO POR IGNACIO SANCHEZ MEJIAS
SONETOS
Alianza Editorial
Etiquetas: antiguidades, poesia/poetry/poesie
terça-feira, 11 de novembro de 2008
Lima de Freitas - capas de livros policiais

I
Marliyn Pringle, loura, roliça e com dezasseis anos, morava em Fulham. Usava sapatos de salto alto com ar constrangido, meneava as ancas no estilo da sua cançonetista pop preferida e gostava da maneira como a sua saia curta oscilava a cada passo.
Quando saira da escola, aos quinze anos, sonhava ser cabeleireira, mas o pai tivera outras ideias e mandara-a estudar numa escola comercial, durante doze meses, e depois arranjara-lhe um emprego de dactilógrafa no escritório de um corretor.
Na manhã de 3 de Abril, Marilyn levantou-se tarde
e não teve tempo de tomar o pequeno almoço. Viu-se aflita para se vestir, pentear e retocar a maquilhagem da véspera em menos de vinte minutos.
Ao sair, deu-lhe ainda mais pressa a voz queixosa da mãe, que lhe ralhava: « ... não admira que te custe a levantar! Deitas-te a umas horas escandalosas. Se o teu pai soubesse a que horas chegaste a casa ontem à noite ...
À entrada da estação do metropolitano de Parson's Green encontrou uma amiga. Não se viam desde a véspera à noite e tinham muito que conversar: roupas, rapazes, o Top Twenty, o problema de viver com os pais, etc., etc. Falaram sem parar a partir desse momento, e continuavam a tagarelar quando em Notting Hill Gate mudaram para a Central Line.
Marilyn gostava da companhia de Sandra, que era uma rapariga feiota, pacata, admiradora do cabelo e do gosto para se vestir da amiga. Nenhuma delas ouvia o que a outra dizia, mas as confidências que mutuamente se faziam ajudavam a passar o tempo.
Só quando o andamento do comboio começou a afrouxar, perto da estação de Tottenham Court Road, Marilyn se lembrou, de súbito, da asneira que fizera.
-Oh, esqueci-me por completo! Agora estou bem arranjada!
-Que foi?
-Esta manhã não devia ir direita ao escritório; Miss Dodd pediu-me que lhe fizesse um recado... Vínhamos tão entretidas, a conversar, que nunca mais me lembrei. Parece-me que este vai ser um daqueles dias ...
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Os seus saltos altos não tinham sido feitos para andar depressa e embora ela estugasse o passo o mais que podia, ao longo da Princess Road, os cinco minutos de caminho pareceram-lhe intermináveis. Por muito que corresse, não tinha esperanças de chegar ao escritório antes das dez e meia, pelo menos.
«A esta, hora já Miss Dodd está a olhar para o relógio. Se não me vê chegar, começa a ferver e não quererá saber de desculpas para nada. Mal eu abrir a boca, desatará a berrar ... »
Um rapaz que cortava a relva, à saída de Grove Court, assobiou e perguntou-lhe:
-Onde é o fogo, lourinha?
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Do lado de fora da porta do apartamento uma mulher servia-se de um aspirador, mas ao vê-la aproximar-se desl1gou o aparelho e meteu dentro do lenço uma ou duas madeixas de cabelo .. Os seus olhinhos pequenos observaram Marilyn de alto a baixo e a mulher comentou:
-Bonito dia ... Parece que a Primavera chegou, finalmente, não parece ?
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O apartamento estava mergulhado em penumbra. Dois raios sol que entravam por uma abertura nas cortinas da sala e incidiam na carpeta permitiram-lhe ver os contornos dos móveis: um grande sofá, várias poltronas confortáveis, uma mesa, um armário com portas de vidro, algumas estantes e um aquecedor eléctrico montado na parede oposta à janela.
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Ao longo do corredor soaram os passos pesados e firrmes de um homem, que se tornaram mais lentos à medida que se aproximavam. Um homem tossiu e a jovem ouviu tilintar chaves.
De súbito, teve medo. Tinha todo o direito de se encontrar no apartamento, mas se o homem entrasse e a visse ali, de cortinas corridas e luz apagada, podia pensar que a sua intenção era roubar qualquer coisa.
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Depois apoderou-se dela um novo medo. Talvez o ladrão fosse o homem que se encontrava lá fora ... Não essperaria encontrar ninguém no apartamento, àquela hora ... e quando percebesse que ela o poderia identificar procederia de modo a que jamais pudesse denunciá-lo à Polícia .
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Do lado de fora, o homem tossiu outra vez e deixou cair as chaves.
Marilyn aproveitou o tempo que ele levou a apanhá-las para acender a luz da sala e quase correr para o telefone. Com o coração a bater desabaladamente, levanntou o auscultador e marcou L ...
«Se entrar antes de me responderem, morrerei... Sei que morrerei. .. »
O ...
«Devia ter marcado 999. Quem quer que ele seja, não se atreveria a aproximar-se de mim se soubesse que a Policia estava à escuta ... »
N ...
Girou uma chave na fechadura da porta do outro lado do corredor e as dobradiças, que precisavam de lubrificação, gemeram. O homem tossiu de novo, a porta, fechou-se e reinou outra vez o silêncio, cortado apenas pelo barulho distante do aspirador.
Marilyn respirou fundo, longamente, e esperou que o bater do seu coração se normalizasse, antes de marcar o resto do número do escritório. Quando ouviu a cammpainha tocar, do outro lado da linha, pegou num lápis que se encontrava junto do livro de apontamentos e começou a brincar com ele, enquanto ensaiava o que diria a Miss Dodd.
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- Fala Marilyn, Miss Dodd, Marilyn Pringle. Estou a falar de Grove Court. Achei melhor dizer-lhe onde me encontro, no caso de estranhar a minha demora ...
Calou-se, ao ouvir novos passos no corredor, passos que, desta vez, lhe pareceram furtivos.
Cheia de medo, virou-se para a porta e, pela primeira vez, viu a parte oculta da cadeira, que fora puxada para junto da mesa do telefone.
Abriu a boca e teve a impressão de que os seus cabelos se punham em pé. Enquanto se esforçava por recuperar o fôlego perdido, Miss Dodd barafustava:
-Claro que já estranhei a sua demora! Sabe que horas são, minha menina? Já aqui devia estar e, aparenntemente, ainda nem ...
Marilyn Pringle não ouviu mais nada. Apavorada, deixou cair o auscultador e encolheu-se contra a mesa. Só então conseguiu gritar.
Hartley Howard
Madrugada Sangrenta
Colecção Vampiro
Edição "Livros do Brasil" Lisboa
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sábado, 18 de outubro de 2008
Hartley Howard
A cidade tivera também o seu quinhão de contratempos:fios telegráficos arrancados pelo vento ou quebrados pelo peso do gelo; ruas obstruidas pela neve congelada e onde tudo quanto tinha rodas saltava e escorregava; valetas sobre as quais se erguiam paredes de um branco sujo, que cresciam ràpidaamente à medida que turnos de empregados camarários limpaavam os passeios, às pàzadas, numa batalha perdida contra os turbilhões de neve que caíam sem cessar.
E estava frio. O vento vinha direitinho dos gelos flutuantes do Norte e abria caminho por todas as fendas e buracos, sorvendo a vida e o calor e deixando em
seu lugar um torpor gelado. A temperatura continuava a descer na manhã do quarto dia.
Parara à porta da barbearia do Hymie, situada ao lado da baiuca onde tenho o meu escritório, e observava o termómetro colocado na montra, antes de subir.
O barbeiro veio ter comigo, a soprar nos dedos fechados e a bater os pés.
- Olá, Mr. Bowman! Ainda tem dez dedos?
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Distingui dois vultos, através do vidro granitado em que incidia a luz do corredor. Um era mais alto do que o outro embora ambos fossem de pessoas baixas e pouco corpulentas. Aguardavam que as mandasse entrar, apesar do convite escrito na porta, e eu observava-as com uma sensação de constrangimento que me irritava. Se os meus visitantes tivessem más intenções, não estariam com cerimónias: nunca me constou que alguém pedisse licença para entrar antes de apontar uma arma. No entanto, não conseguia afastar da ideia a ameaça fria contida na voz que me telefonara.
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Quando a porta se abriu, deparei com duas simpáticas velhinhas daquelas que espreitam debaixo da cama antes de apagarem a 1uz. Não tenho grande queda por velhotas (o meu gosto vai dos vinte aos trinta e poucos} mas estas pareciam dois antigos camafeus vitorianos, devolvidos à vida e borrifados de fragante e fresca alfazema.
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- É Mr. Bowman? Mr. Glenn Bowman? -perguntou-me com voz suave, de acento do Sul.
Levantei-me e sorri-lhe também:
-Sim, sou Bowman. Em que posso ser-lhes útil, minhas senhoras?
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- Chamo-me Mary Parsons. - E, com uma leve inclinação de cabeça, que lhe fez tilintar os brincos, indicou a companheira: -A minha irmã mais nova, Harriet. Desejamos contratar os seus serviços, Mr. Bowman.
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-Quando souber do que se trata, Mr. Bowman, talvez não deseje ajudar-nos. - Os lábios tremeram-he e inclinou-se para a frente, suplicante. - Oxalá me engane! Ninguém nos dá ouvidos, aqui... dissemos a todos que sabíamos que Cecilia não faria tal coisa, mas limitaram-se a encolher os ombros e a replicar que lamentavam muito. e. irritante! - concluiu,
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- Para começar, quem é Cecilia?
- Era nossa sobrinha - respondeu Mary -, a única filha do nosso irmão mais novo.
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- Compreendo. - Garatujei meia dúzia de notas no livro de apontamentos e indaguei: - E que fez Cecilia, Miss Parsons?
- Morreu.
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terça-feira, 7 de outubro de 2008
Adolfo Casais Monteiro

Debruço-me e escuto...
Tanto ouço que me estoiram os ouvidos...
Mar tão alto
como geme chora ri
e canta!
Vida!
Nesta desordem de andar
que ir e vir que inquieta!
caminhos sempre cortados
marés vivas marés baixas
elipses...
Adolfo Casais Monteiro
VERSOS
INQUÉRITO
1944
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