quinta-feira, 10 de maio de 2012

Finalmente já posso continuar a colocar coisas neste blogue. Houve uma azelhice minha, mas o caso já está resolvido.
Vou recomeçar com um poema de Herberto Helder.

 TODAS PÁLIDAS, AS REDES
                      METIDAS NA VOZ.

Todas pálidas, as redes metidas na voz.
Cantando os pescadores remavam
no ocidente - e as grandes redes
leves caíam pelos peixes abaixo.
Por cima a cal com luz, por baixo os pescadores
cheios de mãos cantando.
Cresciam as barcas por ali fora, a proa
aberta como uma janela ao sal.
Metida na voz, toda pálida, a proa
rimava no ocidente com a cal que os pescadores
remavam, cantando grande, pe-
la luz fora. Ao sol, ao sal.

E o espírito de Deus como num livro
movia-se sobre as águas.
Com seu motor à popa, veloz, peixe
sumptuoso, o espírito de Deus, motor de um nú-
mero de cavalos, galgava
a antiga face pálida das águas. Enquanto,
cantando as redes,
os pescadores metiam as mãos cheias de cal
de cal pelos grandes peixes abaixo.
E pelas barcas fora a luz remava pe-
lo ocidente todo pálido, rimando
as redes leves com a proa.

E o peixe espírito de Deus, rangendo
o motor, rompia com um número,
remando todo pálido os seus grandes
cavalos. Deus
cantava no ocidente sobre as redes de cal,
a proa aberta - como as guelras
da luz. E os pescadores
metiam as redes pelo espírito de Deus abaixo.
E os remos rimavam com as redes
leves no peixe sumptuoso.
Por ali fora as guelras caíam na voz
dos grandes pescadores.

E Deus metido então nas redes, puxado
cor de cal para dentro
das barcas, as mãos cantando cheias
de pescadores.
E sobre as águas rangentes, rompendo
o leve ocidente, os pescadores remavam
o espírito de Deus para terra - peixe
de motor à popa - e a proa
grande aberta.

E cantavam o seu peixe sumptuoso, espírito
pálido na leve cal do ocidente
cantando.

HERBERTO HELDER
de Electronicolírica, 1964

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