terça-feira, 24 de março de 2009

Photographic views of North America

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

A saia

A SAIA DE MARIA FERNANDES

Um escriptor portuguez, discorrendo ácerca dos tributos injustamente postos ao povo, diz que raras vezes deixou Deus, de, providencialmente, mostrar, que lhe desagrada a ve¬xação do povo. E para abonar a sua preposição cita varios factos, e entre outros o seguinte:
EI-rei O. João III lançou um tributo ao povo para as fes-
tas do casamento do principe D. João, seu filho.
Havia então em Montemór-o-Novo uma mulher muito po¬bre dos bens da terra, mas muito rica dos do céo; sua vida era ouvir uma missa pela manhã, resar o seu rosario e vir para casa e fiar linho, com o que se sustentava. Eis que um dia chegam os ministros da justiça, e lhe pediram um tostão, que na finta lhe fôra lançado; disse a mulher que n'aquella casa o não havia, e que isto sentia ella muito, porque desejava servir o seu rei.
Entraram os ministros, e tomaram-lhe uma saia com que ia á missa. Que faria esta pobre mulher? Eram as lagrimas tantas, que parece subiam aos céos os suspiros e as ancias. E foi tanto o excesso da mulher, que chegou aos ouvidos d'el-rei, o qual disse que sua tenção não era vexar aos pobres.
Comtudo o principe morreu em tempo de nove mezes.
Logo a rainha D. Catharina começou a dar taes demonstra¬ções de tristesa, que chegou a se pôr ás contas com Deus.
_ E bem, senhor, oito filhos me levastes, agora este que era o lume dos meus olhos, me arrebataes? Que é is¬to? Que peccados tenho commeltido contra vossa divina magestade?
Ouvindo o rei isto, lhe disse:

- Senhora, não vos queixeis de Deus, não vos matou elle vosso filho. Sabeis quem o matou? A saia de Maria -Fernandes de Montemór-o-Novo.
Observaremos que o escriptor era ecclesiastico, e que não tanto vociferava contra o vexame de injustos impostos. como contra os que se exigiam aos ecclesiasticos e ás pes¬soas que serviam a Deus.
A saia de Maria Fernandes, que o fisco tomára, era aquella com que ia á missa, e por isso o alludido escriptor insiste no caso.
Mas, comtudo, outros exemplos apresenta, que são me¬ras coincidencias casuaes.
Todavia, sempre os portuguezes reagiram contra os tri¬bulos vexatorios, e de que não havia immediata necessidade.

SUMMARIO DE VARIA HISTORIA
NARRATIVAS, LENDAS, BIOGRAPHIAS, DESCRIPÇÕES DE TEMPLOS E MONUMENTOS,
ESTATISTICAS, COSTUMES CIVIS, POLITICOS E RELIGIOSOS DE OUTRAS ERAS
por RIBEIRO GUIMARÃES
1874

Etiquetas: ,

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Mendigos



OS MENDIGOS NO SECULO XVI

Antigamente os mendigos constituiam uma classe social reconhecida. Bem póde dizer-se, que se considerava necesssaria a mendicidade ou mendignidade, para que podesse haver caridade. Que, valor teria o caldeirão dos conventos, se não houvera
mendigos? Em quanto as almas piedosas fundavam esplendidos conventos de frades mendigos, emquanto, o acto mais religioso d'essas epochas era fundar e dotar conventos e mosteiros, destinados a receber ociosos,não se tratava de acudir áquelles, que por invalidez proveniente de velhice ou de enfermidade, se viam obrigados a mendigar. Dizia-se com, orgulho, tantos mil pobres recebem a caridade do caldo das portarias, dos conventos, mas ninguem sentia a necessidade de crear e estabelecer hospicios para recolher os mendigos.
Alguns conventos menos, e alguns hospicios ou asylos mais, e a mendicidade não seria tanta; e os verdadeiros desgraçados teriam um abrigo. Haveria menos ociosos de gordo cachaço, porém haveria mais desgraçados soccorridos. Mas a mendicidade era inherente á existencia dos conventos, era portanto natural animal-a e protegel-a. Sem mendigos, os frades deixavam de ser caritativos. Muita gente se lembrará do grande numero de mendigos que vagueavam por essas ruas, antes de 1834, e que todos os dias, pelo meio dia, se juntavam nas portarias dos conventos. Todos se recordam das ascarosidades que, em constante exposição e no meio de grandes alaridos, percorriam a cidade. Era um espectaculo ignobil e um documento tristissimo da atrasada civilisação d´esses tempos.
Acudiram-nos estas reflexões, lendo em um livro antigo, que os mendigos tinham n'esta cidade tres confrarias, sendo duas d'estas a do Senhor Jesus, na freguezia de Santo André, que era dos cegos, e a de Santo Aleixo, na Misericordia, que era universal. Concorriam os mendigos, reunidos nas suas confrarias, a varias funcções publicas - d'isto subsistem documentos - e usavam levar nas mãos cannas verdes.
Quando no anno de 1588 foram transferidas as famosas relíquias existentes na egreja da Misericordia para a casa professa dos jesuitas de S.Roque, os mendigos figuraram no acto. A trasladação das reliquias,que ainda hoje estão na egreja de S. Roque,
verificou-se com grande solemnidade no dia 25 de janeiro d'aquele anno, e no dia 27 sahiram os mendigos procissionalmente, dirigindo se á egreja de S. Roque.
O licenciado Manuel de Campos, na sua Relação do solemne recebimento das Santas Reliquias, assim descreve a procissão dos mendigos:

«Os pobres, que por causa das suas doenças e aleijões, não tinham facil entrada para se irem offerecer ás santas reliquias, acharam invenção para se lhes dar logar... n´esta procissão iam as mulheres de' uma parte, e os homens de outra com umas
cannas verdes nas mãos, com capella de canto de orgão e charamellas que houve a confraria de Santo Aleixo, cuja imagem traziam em uma charola, por serem seus confrades,cousa muito nova, e de grande consolação vêr quasi todos os pobres de Lisboa, juntos em piedoso exercicio, virem a visitar as santas reliquias como fizeram.»
Outra menção se acha da confraria dos mendigos figurando em actos publicos.
Quando o arcebispo de Lisboa, D. Rodrigo da Cunha, regressou a Lisboa da sua viagem a Madrid, fez a sua entrada solemne na capital, no dia 21 de maio de 1639. O arcebispo foi procissionalmente da egreja da Misericordia para a Sé, e os mendigos
figuraram no prestito como confraria. D. Manuel Caetano de Sousa no seu Catalogo Historico, diz o seguinte, alludindo á solemne entrada do arcebispo D. Rodrigo da Cunha:
«0 que fez que esta procissão fosse um glorioso triumpho d'este prelado, foi que iam n'elle todos os pobres da cidade com cannas verdes na mão, mudas as linguas mas chorando os olhos e saltando os corações de alegria.»
Convem, saber que Santo Aleixo,que os mendigos tomavam por patrono, foi um homem muito original. Era natural de Roma, e filho de um senador.
Como viesse a casar na primeira noite fugiu da esposa, deixando-a intacta e foi-se a perigrinar pelo mundo; depois regressou a Roma, e esteve recolhido em casa de seu pae, em habito de pobre, zombando do mundo, diz um escriptor, com esta nova
invenção. Mas depois de morto descobriu-se a farça do bom homem, que demais a deixou declarada em um escripto seu, e isto bastou para que o canonisassem, e assim os mendigos de Lisboa o escolheram para seu padroeiro
É facil de imaginar o que seria a antiga mendicidade, tendo um modo de vida auctorisado; todos os mandriões a vadios se alistavam n´essas confrarias. Victor Hugo, no seu maravilhoso romance Notre Dame de Paris, descrevendo a Côrte dos Milagres, desenha com vivas côres todos os artificios da mendicidade, e como os miseraveis que especulavam com a caridade publica, se caracterisavam para a comedia que diariamente representavam. Assim devia de acontecer em Lisboa, onde o ser mendigo era uma profissão, e onde quantos mais mendigos houvesse, maior era a gloria da religião e maior a honra para os frades.

SUMMARIO DE VARIA HISTORIA
NARRATIVAS, LENDAS, BIOGRAPHIAS, DESCRIPÇÕES DE TEMPLOS E MONUMENTOS,
ESTATISTICAS, COSTUMES CIVIS, POLITICOS E RELIGIOSOS DE OUTRAS ERAS
por RIBEIRO GUIMARÃES

1872

Etiquetas: ,