sábado, 15 de novembro de 2008

Fernando Echevarría

As vezes é difícil discernir se pássaros,
pela fronde, criam sítios
ou se se estreiam nos álamos
discretos de mortos reunidos.
Não vê-los abre-se ao âmago
do nosso próprio exercício
de andar atentos à solidão, ao árduo
discernimento do ouvido.
Prescrutamos as árvores. Do lado
por onde o tronco treme mais antigo,
e de onde os lavradores estudavam o trabalho
encostados ao ócio do domingo.
E, de repente, pássaros
se excitam. E suspiros
de novos lavradores rasgam campos,
enquanto os mortos esmiúçam sítios.

Fernando Echevarría
Sobre os mortos
Afrontamento


Entre os mortos há uns que ficam quietos.
Vêem desmesurados. São lugar
além do qual o silêncio
tem pulso impetuoso de animal.
Nesses a saudade do universo
actua como estando-a a gerar
aquela parte feliz de esquecimento
em que a nomeação pulsa geral
e onde nasce o tempo
com quanto nele a nomear-se está.
Mas outros, muito mais perto
de ainda os estarmos a chorar,
animam os silvados indiscretos
de um Março que não há.
Os mortos vão subindo conforme o seu silêncio
mais vivo pulsa. E pulsa mais geral.

Fernando Echevarría
Sobre os Mortos
Afrontamento


ÚLTIMA CANÇÃO

Uma alegria a atravessar a pena.
Enquanto a pena se desembacia
e a sua luz deixa a negrura, que era
tão invisível. Mas transparecia.
Uma alegria que pesa.
Sobe, difícil, pela paz. E brilha
a despedir-se do amor da orquestra
indo a um silêncio que quase ainda trila.
Depois, quando a alegria cessa de estar sujeita
ao peso da atmosfera, sobe ainda.
E deixa a base do silêncio aberta
para a pena impregnar sua alegria.

Fernando Echevarría
Uso de Penumbra

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