sábado, 27 de novembro de 2010

Ingborg Bacham

Desprende-te, coração, da árvore do tempo,

soltai-vos, folhas, dos ramos esfriados,

outrora abraçados pelo sol,

soltai-vos como lágrimas de olhos largos de longes.


Esvoaça ainda a madeixa dias inteiros ao vento

na fronte tisnada do deus do campo,

sob a camisa aperta o punho

já a ferida aberta.


Por isso resiste, quando o dorso macio das nuvens

voltar a curvar-se para ti,

não te iludas se o Himeto te encher

de novo os favos.


De pouco vale ao lavrador uma erva na seca,

de pouco um verão, face à nossa grande estirpe.

E que testemunha afinal o teu coração?

Entre ontem e amanhã balança,

silencioso e estranho,

e o seu bater

é já a sua queda para fora do tempo.

Ingborg Bacham

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