terça-feira, 17 de maio de 2011

Roberto Fernández Retamar

FELIZES OS NORMAIS

Felizes os normais, esses seres estranhos.
Os que não tiveram uma mãe louca, um pai bêbedo, um filho delinquente,
Uma casa em parte nenhuma, uma doença desconhecida,
Os que não foram calcinados por um amor devorador,
Os que viveram os dezassete rostos do sorriso e um pouco mais,
Os cheios de sapatos, os arcanjos com chapéus,
Os satisfeitos, os gordos, os lindos,
Os rintimtim e os seus sequazes, os que como não, por aqui,
Os que ganham, os que são queridos até ao fim,
Os flautistas acompanhados por ratos,
Os vendedores e seus compradores,
Os cavaleiros ligeiramente sobre-humanos,
Os homens vestidos de trovões e as mulheres de relâmpagos,
Os delicados, os sensatos, os finos,
Os amáveis, os doces, os comestíveis e os bebíveis.
Felizes as aves, o esterco, as pedras.

Mas que dêem passagem aos que fazem os mundos e os sonhos,
As ilusões, as sinfonias, as palavras que nos desbaratam
E nos constroem, os mais loucos que as suas mães, os mais bêbedos
Que os seus pais e mais delinquentes que os seus filhos
E mais devorados por amores calcinantes.
Que lhes dêem o seu sítio no inferno, e basta.

Roberto Fernández Retamar (Cuba)

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4 Comentários:

Blogger Alene Mattos disse...

gostei muito de vááários textos daqui e descobri autores que não conhecia!

muito bom mesmo!

19 de maio de 2011 às 17:52  
Blogger f. disse...

Obrigada Alene, volte sempre :)

11 de junho de 2011 às 17:00  
Anonymous Vitor Marques disse...

Lindo poema. Para uma noite de intensos estudos para seminário da faculdade, um toque de poesia nos deixa gratificantemente mais leves...

Ahh se não fossem os poetas!

1 de novembro de 2011 às 06:56  
Blogger f. disse...

Obrigada Vítor.

5 de novembro de 2011 às 15:09  

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