domingo, 11 de janeiro de 2009

A POESIA É TUDO

haverá descanso para uma nuvem
as nuvens
abraçadas
em entrelaçado?
água
vento
um desalinho
desconcertante
certeza nos movimentos?
não conformada a Terra é o pão
as nuvens a água
e o sol
o centro
total e universal.
os frutos nascem por amor
no quintal
do Éden
e Deus
com as nuvens
sempre
sempre impelindo o pólen
o pólen é o abraço.
diga-se o nome das forças e das coisas
escreva-se o testamento dos frutos
o nome e destino da cor dos peixes
por fim
pergunte-se:
haverá descanso para a Terra?
indelevelmente escreva-se a palavra
as palavras
enquanto as nuvens tocam o pólen
o fermento engenha o pão
pois a Terra não descansa
gira
dança como peão na palma da tua
da nossa mão.


Ivo Machado
in Cinco Cantos com Lorca e Outros Poemas, Ed. de Autor, 1998
A POESIA É TUDO
ANTOLOGIA I



Pudesse eu morrer hoje como tu me morreste nessa noite-
e deitar-me na terra; e ter uma cama de pedra branca e
um cobertor de estrelas; e não ouvir senão o rumor das ervas
que despontam de noite, e os passos diminutos dos insectos,
e o canto do vento nos ciprestes; e não ter medo das sombras,
nem das aves negras nos meus braços de mármore,
nem de te ter perdido - não ter medo de nada. Pudesse

eu fechar os olhos neste instante e esquecer-me de tudo-
das tuas mãos tão frias quando estendi as minhas nessa noite;
de não teres dito a única palavra que me faria salvar-te, mesmo
deixando que eu perguntasse tudo; de teres insultado a vida
e chamado pela morte para me mostrares que o teu corpo
já tinha desistido, que ias matar-te em mim e que era tarde
para eu pensar em devolver-te os dias que roubara. Pudesse

eu cair num sono gelado como o teu e deixar de sentir a dor,
a dor incomparável de te ver acordado em tudo o que escrevi-
porque foi pelo poema que me amaste, o poema foi sempre
o que valeu a pena (o mais eram os gestos que não cabiam
nas mãos, os morangos a que o Verão obrigou); e pudesse

eu deixar de escrever nesta manhã, o dia treme na linha
dos telhados, a vida hesita tanto, e pudesse eu morrer,
mas ouço-te a respirar no meu poema.


Maria do Rosário Pedreira
A POESIA É TUDO
ANTOLOGIA I

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