quarta-feira, 9 de março de 2011

Eduardo Bettencourt Pinto


          Homem consigo próprio

É por uma voz que ainda não escutou
que se levanta do inverno.
Esperou anos por uma sombra,
um pedaço de terra sem pedras,
uma janela donde pudesse olhar
a inviolável paisagem,
as distantes casas crepusculares, o pó
que derruba no silêncio
a tangível e cintilante melancolia do olvido.
Tomou a sua vida nas mãos, a transparência solar,
a fluidez ardente da paixão.
Nunca cantou do alto dos palcos da pesporrência
ou entre cintilantes plêiades de comissionistas
da moralidade,
mas nas derrubadas colunas dos templos,
junto às lágrimas e ao sangue
dos dias
em que morria por tanto amar
um ramo de nespereira quebrado
no olhar duma mulher.
Tem agora postura soturna, alquebrada pelo
reumatismo
e uma garça de angústia voa-lhe no coração.
Senta-se no átrio da igreja coçando os joelhos,
cabelos ralos adejando. As verrugas, acentuadas,
são profundas fissuras de mármore.
Alheio, vulnerável, quieto como um álamo,
não se lhe adivinha o andarilho.
Esteve em Nova Iorque, viu ópera,
foi assaltado por um drogado numa galeria
em S. Francisco enquanto se concentrava num
                                                             [Dalí,
comeu pizza olhando, perturbado,
decotes desinibidos numa praça de Paris,
passou nu frente à Casa Branca numa demonstra-
[ção contra a guerra, bebeu
tequila em esconsos povoados mexicanos
[até se esquecer do próprio nome, amou
tão febrilmente que julgou.
pisar de leve a superfície dum paraíso
abstracto. Viveu como um príncipe
deserdado,
e trabalhou numa fábrica de sabões tantos anos
que até a primavera lhe cheirava a sabonete.
Reformado, ombros caídos, mãos calosas
e deformadas pela solidão,
sentiu no peito o ressoar
da última morte.
Fez as malas, juntou fotografias da sua juventude
em estações de neve, entre amigos e abraçado
a uma irlandesa,
seus pais, vultos cinzentos
na idade da memória.
Mas só ao chegar à ilha,
estonteado e perdido,
compreendeu que a saudade
nunca leva um homem
ao princípio do tempo.

Eduardo Bettencourt Pinto
nove rumores do mar
antologia de poesia açoreana contemporânea
organização de eduardo bettencourt pinto
Instituto Camões

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