terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

António Arnaut




Falo das mãos das minhas próprias mãos
depostas abandonadas
sobre esta mesa desamparada e fria
em que me sento e sinto
o sangue contra o mármore contra o vento
que vareja o mar a praia a esplanada
minhas mãos quietas na minha inquietude
de serem estrelas caídas gestos parados
por dentro do silêncio que escorre lentamente
sobre os meus olhos sobre as veias sobre
todo o corpo como um manto indecifrável
são assim as tardes sem paisagem
quando as mãos se esquecem do nome das coisas
e calam o pulsar do sol do sal
nem a tua voz me faz companhia
não-há palavras para legendar os retratos ausentes
das molduras do tempo liquefeito
como este copo que agora tomo e bebo
para ver se as minhas mãos
ainda sabem ainda sentem
a emoção do vidro e o sabor da sede
que reflui do fundo desta tarde
de um Setembro fugaz à beira da vertigem.

António Arnaut
Recolha Poética
(1954-2004)
Coimbra Editora
2004

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