sábado, 27 de novembro de 2010

Carlos Marzal

Talvez não exista o tempo - dizem isso alguns.
O presente talvez contenha todo
o futuro que espera e o passado
em que fomos outros. Dizem isso.
O tempo, para mim, que sei que as palavras
são um jogo qualquer com que passar o tempo,
é feito pelos rostos dos desconhecidos
em estações, e pelos vidros de espelhos
nos quais o meu fantasma se deteve,
por mentiras que já não distingo da verdade,
pela antiga dor, que não há-de ser nomeada,
aqueles a quem amei e perdi, despenhadeiro abaixo,
confusão e derrota, névoa e ruído.
O tempo é o que invento para escapar a tempo.

Não sei como há quem pense que o tempo não é real.
(Alguns, só por falar, inventam um absurdo demónio,
a quem terminam oferecendo a alma.)
O tempo não é um sonho, e para demonstrá-lo
aqui está o próprio tempo, que converte
estas palavras e quem as pronuncie
em carne de um esquecimento sem remédio.

Carlos Marzal
tradução de Joaquim Manuel Magalhães
aqueles que têm os ossos frágeis
nº 2 primavera / verão 1999

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