quinta-feira, 17 de março de 2011

Luís Quintais


Arte privada

Deveria ter feito da minha música um amor mais silencioso
como se de uma arte privada se tratasse.

A ti, a quem falo de poesia, a ti
que assistes ao desenrolar de qualquer coisa que não compreendes,
respondo-te que também eu não compreendo,
que não há que compreender,
porque nada nos condena à fala
antes que as palavras aconteçam.

Por exemplo, esse poema começado numa manhã de Junho
e nunca terminado: um princípio de verão,
a janela que dá para o alcatrão sem tráfego serpenteando pelas
                            [colinas.
A rua de dia de semana
e o arquipélago da solidão despertando
as poucas coisas que procuro
e que o poema irá entretecer
se entretecer. -
A virtude que, cega,
vai conhecendo o seu caminho.
Desprende-se um fio luminoso da impossibilidade das palavras,
e se ficamos tristes não era para ficarmos,
pois não existem momentos irrepetíveis.
Eles aninham-se no sangue
e voltam a mergulhar-nos na experiência:
um dia de verão, um bosque, colinas
onde a serpente de alcatrão se enrola.
A ausência de tráfego como motivo.

A pouco e pouco vou recuperando a gravura.
Agora sei que havia uma ave sobre as colinas,
pois há sempre uma ave, ou a sombra dela,
nos meus poemas. Que havia água,
o cheiro das inusitadas chuvas
pela manhã de Junho.

O rumor da imagem colado aos dedos.
O ocre escuro das areias espalhado na mesa
é um símbolo da infância,
mas não o reconheço ainda.
O poema é uma enumeração que não teve lugar,
que nunca terá. Eu, à beira do fracasso,
não o reconheço ainda.

Enquanto isso tem lugar em mim o advento
do que me define,
e o barro de que sou feito coze por dentro.

Luís Quintais
 A Imprecisa Melancolia

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2 Comentários:

Blogger Wilson Rossatto disse...

e que o poema irá entretecer
se entretecer. -
A virtude que, cega,
vai conhecendo o seu caminho.
Desprende-se um fio luminoso da impossibilidade das palavras,
e se ficamos tristes não era para ficarmos,
pois não existem momentos irrepetíveis.
Eles aninham-se no sangue
e voltam a mergulhar-nos na experiência:

... Luís... ousei colher do fragmento que de inteiro me fez no barro... arrepios... Rara ave que vê e voa vc... asas, asas... fios de luz e sombra devido a ela, corpo, alma meu caro. Incrível teu poema. Grato por ser e faze-lo. Guardo-o... para ler, reler, ler novamente... e dele mais saber... muito bom, bom demais...

19 de março de 2011 às 11:15  
Blogger gloria leite disse...

Olá
E o barro se fez homem e saiu poeta.
gostei mesmo.
um abraço
Mg

6 de abril de 2011 às 01:39  

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